13/09/2016

Ioannis Ikonomou: o tradutor-chefe do Parlamento Europeu consegue falar 32 línguas fluentemente

Ioannis Ikonomou é o nome do tradutor que mais línguas fala na Comissão Europeia. Vê novelas e notícias em televisões de vários países para não esquecer nenhuma. Natural de Creta, na Grécia, aprendeu português nas favelas do Rio de Janeiro.

A primeira língua estranha que aprendeu foi a do inimigo. "Eu queria saber turco mas era grego. Em Atenas não havia aulas disso. Então os meus pais foram a uma manifestação de refugiados políticos do Norte de Chipre e pediram a uma mulher turca que me ensinasse. Foi a minha primeira professora", explica Ioannis Ikonomou, numa entrevista telefónica ao DN.

"Aprender línguas, para mim, era como os descobrimentos dos navegadores portugueses. Eu não me contentava em conhecer aquilo que todos sabiam falar: inglês, alemão, francês, espanhol, italiano, etc... Queria aprender coisas diferentes. E os meus pais sempre me ajudaram", acrescenta este poliglota, funcionário da Direcção-Geral de Tradução da Comissão Europeia.

Ao longo da vida aprendeu de tudo um pouco e hoje fala 32 línguas, entre as quais o português, que estudou em Harvard e começou a praticar numa das muitas favelas do estado do Rio de Janeiro, como as de Duque de Caxias. "Foi aí que comecei mesmo a falar, pois antes o que falava era o portuñol", confessa, humorado, confundindo ainda os mientras com os enquantos.


Os amigos brasileiros e portugueses que foi fazendo introduziram-no na realidade lusófona. "Eu gosto muito de ouvir fado, é uma reflexão sobre a história portuguesa. Ouço a Amália, incontornável, já vi a Mariza em Bruxelas e os Madredeus em Atenas. Também gosto muito da literatura portuguesa", conta para mostrar que está "em contacto com a língua de Camões".

Já conheceu Lisboa, Porto, Aveiro, Coimbra, gosta muito do país, "um país humano, pequeno, ideal para nos enamorarmos. Nisso é muito parecido com a Grécia", assegura o tradutor, de 44 anos, que está casado com um polaco. "Agora só me falta visitar os países dos PALOP."

Na lista de línguas que ao longo do tempo foi aprendendo, das mais variadas formas e nos mais improváveis recantos do mundo, encontram-se também o árabe, persa, hebraico, russo, chinês, curdo, arménio, urdu, hindi, romeno, lituano, dinamarquês, sueco, holandês, polaco, húngaro, servo-croata, etc... "Eu não sei se é preciso uma pessoa ser muito inteligente para conseguir falar assim tantas línguas, o que sei é que é preciso ser muito curioso pelas várias civilizações do mundo", adverte Ioannis Ikonomou, manifestando um grande interesse nos egípcios, nos maias, nos etíopes.

O tradutor grego de Creta é um dos 1750 que emprega a Comissão, mas o único que fala 32 línguas. "Não é importante para mim ser o primeiro ou o segundo melhor. Até já me disseram para tentar entrar no Livro Guinness dos Recordes, mas eu não tenho interesse nisso. O meu único rival sou eu próprio. Todos os dias tento ultrapassar-me e melhorar cada vez mais. Cada língua que aprendo é como uma nova história de amor."

E como é que, todos os dias, pratica tantas línguas para não se esquecer de nenhuma? "Vejo as novelas, as notícias, de vários países. No caso de Portugal vejo a RTP, o telejornal e aquele programa sobre culinária de São Tomé e Príncipe [de João Carlos Silva]. Leio pouco em grego, a minha língua materna, leio mais nas outras línguas"..

Quando às gafes dos políticos da UE, incluindo portugueses, admite que tem em mente vários episódios, mas que por razões de sigilo profissional prefere não os contar. Impedir que os líderes europeus fiquem lost in translation é, por isso, uma das suas principais missões. "Nós funcionamos um pouco como os médicos da língua. Curamos." E conclui em estilo de pergunta: "Então se toda a gente falasse bem, o que é que nós, os tradutores, iríamos depois fazer?"

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