21/09/2017

1 a cada 200 pessoas no mundo são descendentes de Genghis Khan, segundo estudo da Universidade de Oxford

Um só homem, que viveu há cerca de mil anos em algum rincão da atual Mongólia, realizou um feito reprodutivo sem precedentes na história da humanidade: espalhou descendentes masculinos por uma área que vai do Pacífico ao Cáspio, gente que responde por 8% dos homens que vivem nas fronteiras do antigo Império Mongol, ou 12 milhões de pessoas, se as estimativas estiverem corretas. Flagrado graças a seu cromossomo Y -a marca genética da masculinidade- esse pai de multidões, dizem geneticistas britânicos, foi muito possivelmente Genghis Khan (1162-1227), o guerreiro nômade que levou os mongóis a governar a maior extensão contínua de terras da história humana.

Embora o resultado tenha implicações profundas para a capacidade da genética de reconstruir eventos históricos, algo tão grandiloquente nem passava pela cabeça de Chris Tyler-Smith, do Departamento de Bioquímica da Universidade de Oxford, quando ele e seus colegas se dispuseram a examinar amostras genéticas de homens da Ásia. "Estávamos interessados em fazer um exame básico do cromossomo Y na região. Queríamos entender os padrões das diferentes linhagens, que pareciam muito antigas e diversificadas", diz o geneticista.


Saber quais os tipos de cromossomo Y presentes numa dada população humana é uma das maneiras mais precisas de descobrir como a informação genética é transmitida de pai para filho (no sentido exclusivamente masculino da expressão). O que determina se uma pessoa é homem ou mulher é o par de cromossomos sexuais (X ou Y) recebidos dos pais: XX faz uma mulher, enquanto a combinação XY produz um homem. Mães, porém, só podem legar a seus filhos cromossomos X, enquanto os espermatozóides paternos podem carregar tanto um X quanto um Y. Dessa forma, o cromossomo da masculinidade é passado em linha ininterrupta de pai a filho homem, mudando muito pouco com o tempo -já que ele não recombina seu material genético com os demais cromossomos.

É essa estabilidade que faz do cromossomo Y uma das pistas prediletas dos geneticistas e antropólogos que tentam reconstruir a história das populações humanas com base nos genes. O DNA presente nas mitocôndrias, as usinas de energia das células, também costuma ser usado para esse fim: ele é transmitido apenas pelas mães a filhos e filhas e, por estar separado do material genético do núcleo da célula, não se recombina. 

Estimando a taxa de mutação espontânea de ambas as variáveis, é possível saber quem andou tendo sucesso reprodutivo nas linhagens masculina e feminina -e que implicações isso tem em termos históricos. A equipe de Tyler-Smith, formada por pesquisadores ingleses, italianos, chineses, uzbeques e mongóis, colheu amostras do DNA de 2.123 homens asiáticos, pertencentes a 26 etnias diferentes, do Japão às vizinhanças do Cáucaso. 

Para determinar quais os tipos de cromossomo Y que esses homens carregavam, o grupo usou 32 marcadores genéticos. Esses trechos de DNA eram marcados por modificações características, como SNPs ("polimorfismos de nucleotídeo único", formados pela troca de uma só base ou "letra" química do código genético) e microssatélites (pequenos trechos de três ou quatro bases nos quais a mesma letra do DNA se repete). Com esses dados, foi possível definir uma "assinatura" genética do cromossomo Y para cada homem estudado. 

A família do Khan

A princípio, essa análise de rotina nada revelou de muito empolgante: mais de 90% dos homens tinham uma "assinatura" única, como costuma acontecer na maioria das populações humanas. Mas 8% da amostra total parecia se juntar num grupo de linhagens muito próximas, apelidadas de "aglomerado-estrela" pelos pesquisadores. "Lembro que nós dissemos, quase como uma piada, que ali deviam estar os descendentes de Genghis Khan", conta Tyler-Smith. A brincadeira começou a ficar séria quando os geneticistas deram uma olhada na distribuição geográfica do cromossomo: nada menos que 16 etnias, todas dentro da área que formava o império mongol quando seu criador morreu. E se transformou em hipótese quando, usando um programa de computador, a equipe calculou quando e onde o "aglomerado-estrela" teria se originado. O veredicto do software: uma origem por volta de mil anos atrás, na Mongólia. "Se você nos perguntar se essas pessoas partilham um ancestral comum, eu diria que isso é uma certeza matemática", afirma Tyler-Smith. "E algo que nos ocorreu bem cedo, como mostra a piada, é a provável ligação deles com Genghis Khan." 

Além da coincidência temporal e espacial com a família do Khan, outra pista apontava para o governante: no Paquistão, apenas uma etnia, os hazaras, tinha membros entre o "aglomerado-estrela". Coincidência ou não, a tribo se considera descendente do imperador mongol. "As conversas que tivemos com historiadores forneceram outros indícios", conta Tyler-Smith. "Numa campanha militar, por exemplo, o produto dos saques era dividido igualmente entre soldados e comandantes, mas todas as mulheres jovens tinham de ser enviadas para Genghis Khan." Isso sem falar nas diversas esposas "oficiais" que o líder teve ao longo da vida. Mesmo assim, o pesquisador de Oxford alerta: "Se você nos perguntar se temos certeza de que ele foi o originador desse cromossomo, a resposta é não, mesmo porque a estimativa mostra que ele surgiu várias gerações antes do nascimento dele", diz. "Mas ele certamente levava esse cromossomo. Não podemos excluir a possibilidade de que, no mesmo lugar e na mesma época, alguma outra pessoa tivesse sido responsável por essa expansão. Contudo, seria muito improvável que tamanho sucesso reprodutivo não tivesse motivos históricos", afirma Tyler-Smith. "Além do mais, é preciso deixar claro que tudo isso não aconteceu numa geração só. Todos os irmãos de Genghis Khan teriam o mesmo cromossomo, assim como seus filhos e netos". 

Essa família incluiria Kublai Khan, neto do conquistador e imperador da China (com as milhares de concubinas que eram parte das benesses do cargo), e linhagens reais na Rússia, na Pérsia, na Coréia e na Mesopotâmia. O último descendente de Genghis Khan a governar um reino, Shahin Girai, khan da Criméia, morreu em 1783. 

Seleção natural 

Se a hipótese da equipe de Oxford estiver correta, eles podem ter dado de cara com um tipo de seleção natural muito raro na espécie humana, causado não pelas vantagens inerentes de possuir esse ou aquele gene, mas por pertencer a um clã que concentrou o poder (e as mulheres) de um continente inteiro com uma intensidade sem precedentes.

"Em populações regionais, como os índios achés, do Paraguai, existem coisas parecidas. Todos eles têm o mesmo cromossomo Y", diz Maria Cátira Bortolini, pesquisadora da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) que estuda as linhagens do cromossomo em ameríndios. "Mas eles são apenas alguns milhares de indivíduos. Numa escala mundial como essa, eu nunca tinha visto", ressalta Bortolini. "Qualquer um que estudar essas populações asiáticas vai ver as pegadas de Genghis Khan ali."

Tyler-Smith concorda: "Esse tipo de assimetria nas linhagens de cromossomo Y acontece, no máximo, entre populações inteiras. No Brasil, por exemplo, onde houve muita mistura genética, esses cromossomos são principalmente de origem européia, enquanto o DNA mitocondrial é de origem indígena ou africana. Mas Genghis Khan realmente se destaca como algo único".

"Isso demonstra a alta correlação entre os estudos com o cromossomo Y e a história", afirma Fabrício Santos, geneticista da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). "Como a história humana, principalmente quando se fala de conquistas e dominação, foi bastante machista, esse cromossomo é mais adequado que o DNA mitocondrial para responder a essas perguntas."

Por enquanto, de acordo com Tyler-Smith, é difícil saber se o "imperador dos imperadores" (tradução de "Genghis Khan", cujo nome era Temujin antes de assumir o título) deixou descendentes também entre os russos, que viveram por séculos sob domínio mongol. "Seria interessantes descobrir isso", diz o britânico.

"Eu diria que Genghis Khan é o exemplo mais extremo de algo que aconteceu outras vezes. Os homens têm uma tendência através da história a agir dessa forma quando as circunstâncias o permitem", diz Tyler-Smith. "Só sei que, toda vez que paro para pensar, fico assombrado. Um em cada 200 homens no planeta descende dessa linhagem", afirma.

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