25/10/2017

Homem ganha coração e se casa com a viúva do doador

Há 14 anos, Celedino Vieira, 59, ganhou de volta a vida e um inusitado amor com o transplante de coração. A cirurgia o fez recuperar as batidas no peito e conhecer sua atual esposa: Leila, 38, a viúva do doador.

Como ele mesmo e seus amigos brincam, o paciente levou o coração e a mulher do doador Adenilson de Souza Batista, 26. Se fosse enredo de um conto romântico, Celedino poderia ser apresentado como o protagonista que recebeu a missão de continuar fazendo o coração bater no peito, tanto dele como de Leila e de seus dois filhos, de 6 e 8 anos na época.


Além da história de amor, o transplante é responsável por quebrar mais um dos estigmas a cerca do que é ou não possível para a razão humana. Celedino supera a marca de 10 anos, prazo previsto de vida do novo coração informado pelo médico na época do transplante, e ainda garante que vive com qualidade.

Ele é o paciente vivo mais antigo que realizou esse tipo de transplante em Campo Grande (MS), na Santa Casa. A primeira cirurgia foi feita em 1993 e ele foi o quarto a realizar o procedimento. Em 2005, os transplantes foram interrompidos pela falta de estrutura do hospital e só foram retomados na semana passada, oito anos depois.

“Da minha turma de oito transplantados, todos já morreram. O último foi há dois meses, agora não sei se fico alegre ou preocupado”, brinca.

Quando realizou o transplante, em 1998, Celedino esperava há um ano e meio na fila depois de ser diagnosticado com miocardiopatia dilatada, dois anos antes. Ele morava na cidade de Dourados, interior de MS, e revezava os dias de trabalho com as viagens até a capital para tratamento na Santa Casa.

Depois de duas tentativas frustradas de transplante, o paciente recebeu a notícia de que tinha um coração pronto para cirurgia. O doador era um jovem, que teve morte encefálica após ser baleado durante briga em lanchonete. A vítima estava em um táxi e não tinha nada a ver com a confusão no local.

A cirurgia foi bem-sucedida e Celedino pode retomar a vida normal, com o trabalho, a esposa de mais de 20 anos de casamento e os dois filhos. Mas guardou o desejo de conhecer a família do doador e agradecer pessoalmente, quem sabe poder ajudar de alguma forma.

“O desejo de conhecer a família foi imediato, mas só consegui encontrar eles depois de um ano. Enchi tanto a menina do hospital que consegui um telefone, do sogro do doador, e aí comecei a fazer contato”, diz.

Novo amor 

Ele foi até Campo Grande conhecer a viúva Leila e os dois filhos do casal. Descrente de histórias de amor do tipo de novelas, mesmo ele próprio sendo um personagem da vida real, Celedino já esclarece, logo no início da fala, que não teve “nada de amor à primeira vista”.

Para ele, os acontecimentos em torno de um só coração se tratam de pura “coincidência”. 
Coincidências do amor ou não, as duas famílias mantiveram contato, à distância. Só cerca de dois anos depois, já separado da primeira esposa, é que os dois corações voltaram a bater na mesma sintonia.

“Mudei para Campo Grande para abrir uma empresa e ficava muito sozinho. Como só conhecia eles, ia sempre visitar, às vezes almoça junto no fim de semana e fomos criando uma amizade. No começo eu gostava mais das crianças do que dela e me aproximava mais por gratidão, para querer ajudar”, conta.

Leila diz que só aceitou a aproximação por “muita insistência” de Celedino. “Não queria nenhum tipo de envolvimento com ele. Tinha certa aversão a ele, mas nada ligado ao fato dele ter recebido o coração, era coisa de não ir com a cara mesmo”, admite.

Mas como coisa de coração simplesmente acontece e ninguém explica, os dois se apaixonaram. Após dois anos de namoro, Celedino chamou Leila para ir morar com ele na cidade de Jardim, interior de MS, onde os dois estão juntos até hoje.

Ela brinca que os dois são o casal mais “incompatível que conhecem”, mas que se encontraram mesmo com seus jeitos diferentes e que é “loucamente apaixonada”.

Coração

Celedino e a mulher também se tornaram incentivadores assíduos da doação de órgãos. Ela lembra que a história quase não aconteceu porque era contra a doação dos órgãos do então marido.

O jovem, no entanto, era doador declarado e o médico a convenceu de que essa seria uma forma de manter batendo o coração do homem que ela amava. Os órgãos ainda beneficiaram outras quatro pessoas, que Leila nunca conheceu.

Em tom de brincadeira, Celedino reafirma o sucesso do transplante e diz que só em um ponto não fez efeito. “O doador era corintiano roxo e eu detesto o coringa”, diz o torcedor do Palmeiras, mas que não se declara fanático por time.

Em Mato Grosso do Sul, 19 pessoas esperam atualmente na fila de transplantes. A esperança é de que a fila volte a andar agora depois de ter ficado oito anos parada. Na semana passada foi realizado o primeiro transplante após a reforma de R$ 2 milhões na Santa Casa, com recurso doado por um pecuarista.

Fonte: Terra
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