05/09/2018

O bombeiro que se queimou ao tentar resgatar Luzia e salvou cerâmicas do Museu Nacional que teriam 7 mil anos

O soldado do Corpo de Bombeiros Rafael Luz, de 35 anos, estava de folga quando soube do incêndio de grandes proporções que atingiu o Museu Nacional. Mas não pensou duas vezes: apresentou-se no Quartel de Copacabana, onde é lotado, pegou seus equipamentos e partiu para a Quinta da Boa Vista, onde se juntou a outros militares no combate às chamas. Em um relato emocionado, publicado nas redes sociais na tarde de segunda-feira, o soldado contou que se queimou ao tentar resgatar o crânio de Luzia, o mais antigo fóssil humano encontrado nas Américas. Entretanto, não saiu de mãos vazias. Resgatou peças de cerâmica e, ao entregá-las a um funcionário do museu, ouviu em resposta: “você salvou 7 mil anos de história da Grécia”.

“Assim que cheguei, confirmei a extensão da tragédia que já tinha visto. E sabe o que mais eu vi? Um grupo de homens e mulheres, trabalhando exaustivamente, enfrentando chamas, fazendo o possível e o impossível. Eu vi um corpo, o meu corpo, O Corpo de Bombeiros. O pessoal do museu tentava ajudar com o que podia, mas era perigoso muita gente entrar naquele espaço. Alguns, lembro do nome do Vitor, entraram, nos indicaram lugares, foram firmes junto conosco. Consegui com outros bombeiros salvar algumas cerâmicas, peças que nunca na vida imaginei segurar nas mãos. E se isso estava acontecendo, era só a confirmação da tragédia que estávamos vivendo”, escreveu o bombeiro.


Rafael foi um dos primeiros a chegar à sala onde estava o crânio de Luzia. Conduzido por um funcionário do museu, ele abriu um armário e se deparou com um ferro incandescente. Segundo ele, a alta temperatura do material derreteu a luva que o protegia do fogo e queimou seus dedos.

“Eu sabia a importância e relevância dessa peça. Fomos levados à sala onde ela estava (a exposta era uma réplica). Junto com o Tenente Coronel Vitoriano, entramos em uma sala ainda com focos e avançamos. Fizemos um esforço gigantesco e conseguimos nos aproximar e abrir o armário. Ao procurar Luzia, encontrei vazio e um ferro incandescente que derreteu minha luva e queimou meus dedos. Doeu, muito. Saí da sala e chorei. De dor? Não. De frustração. Eu queria ter achado Luzia, ter salvado mais itens, ter ido mais ao museu, ter reclamado mais do abandono do nosso patrimônio histórico”, contou o bombeiro.

Rafael Luz também desenvolve um trabalho de prevenção de acidentes junto à TV Brasil, apresentando a série “Amigos do Pelotão”. Na atração, ele se apresenta como o Bombeiro Rafa e, por meio de brincadeiras e histórias criativas, ensina as crianças a prevenirem acidentes e não contarem mentiras. De acordo com o site da emissora, a série foi desenvolvida pelo próprio bombeiro, que já atuou no Haiti e foi homenageado com uma medalha de mérito pela corporação.

Confira a íntegra da publicação de Rafael Luz:

“...EM CADA CANTO UM HERDEIRO DE LUZIA...!” (Imperatriz Leopoldinense, carnaval 2018).

Eu estava lá, posso falar?

Ontem, assim como a maioria dos brasileiros, tomei conhecimento que o Museu Nacional estava pegando fogo. Também, como muitos brasileiros, um sentimento de angústia tomou conta de mim. Porém, diferente da maioria dos brasileiros, tive certeza que poderia fazer algo para ajudar. E assim fiz: de folga, assim que foi possível, fui para o meu quartel, peguei meus equipamentos e parti (de metrô) para a Quinta da Boa Vista.

Assim que cheguei, confirmei a extensão da tragédia que já tinha visto. E sabe o que mais eu vi? Um grupo de homens e mulheres, trabalhando exaustivamente, enfrentando chamas, fazendo o possível e o impossível. Eu vi um corpo, o meu corpo, O Corpo de Bombeiros.

O pessoal do museu tentava ajudar com o que podia, mas era perigoso muita gente entrar naquele espaço. Alguns, lembro do nome do Vitor, entraram, nos indicaram lugares, foram firmes junto conosco.

Consegui com outros bombeiros salvar algumas cerâmicas, peças que nunca na vida imaginei segurar nas mãos. E se isso estava acontecendo, era só a confirmação da tragédia que estávamos vivendo.

Em determinado momento, pedi que o Vitor me mostrasse o local onde ficava a Luzia. Eu sabia a importância e relevância dessa peça. Fomos levados à sala onde ela estava (a exposta era uma réplica). Junto com o Tenente Coronel Vitoriano, entramos em uma sala ainda com focos e avançamos. Fizemos um esforço gigantesco e conseguimos nos aproximar e abrir o armário. Ao procurar Luzia, encontrei vazio e um ferro incandescente que derreteu minha luva e queimou meus dedos. Doeu, muito. Saí da sala e chorei. De dor? Não. De frustração. Eu queria ter achado Luzia, ter salvado mais itens, ter ido mais ao museu, ter reclamado mais do abandono do nosso patrimônio histórico. Mas não deu. E a queimadura vai me fazer lembrar por muito tempo o preço que se paga pela omissão.

Tenham certeza que eu e meus companheiros que lá estávamos fizemos todo o esforço humanamente possível para salvar qualquer coisa. Sofremos juntos, choramos também.

O lema do Corpo de Bombeiros é: “Vida Alheia e Riquezas Salvar!”

Riquezas Salvar...

Essa parte do lema nunca fez tanto sentido.

“...Destruímos hoje, o que podia ser depois...”

Ou nunca!

Fonte: EXTRA
Se você viu algum erro ou quer adicionar alguma informação ao nosso artigo, clique aqui

Os comentários postados a seguir, são de responsabilidade única e exclusiva de seus autores e não representam a opinião particular de nenhum integrante da Curiozone. Como uma forma de ser mais acessível a todos, nosso site usa a plataforma de comentários do facebook. Dessa forma, se você se sentiu ofendido com qualquer comentário postado, fica muito mais prático e rápido denuncia-lo ao próprio facebook clicando aqui. O sigilo é 100% garantido e sua denúncia sempre será anônima.
 
Copyright © 2018 Curiozone // Todas as imagens de filmes, séries e etc são marcas registradas de seus respectivos proprietários