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Buffoniando

O Fundo do Poço

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Queridos amigos e leitores!

Sei que estou há bastante tempo sem compartilhar com vocês os textos e as reflexões. A entrada na Ead de forma abrupta modificou todo o meu cotidiano e planos. Tenho trabalhado bastante gravando aulas ou diretamente em sala virtual. Tenho respeitado desde sempre o isolamento social. Para não deixá-los sem texto por mais tempo, compartilharei um texto de um amigo meu, que surgiu após trocarmos uma ideia sobre o filme, O poço.

 

Quando Pandora abriu a caixa, não por falta de aviso mas por curiosidade, apenas um mal sobrou: a esperança.

Despida da imagem luminosa a ela conferida pela questionável maturidade da cultura ocidental, esta sequela humana consiste em aguardar, velar ânsia pelo futuro, seja ele bom ou ruim. No melhor molde do fundamento da tragédia grega, a espera é algo quase sobrenatural que flanqueia a alma humana.

Na trama de O Poço, terror de sucesso na Netflix, está Goreng aguardando com a mesma esperança que encarna na figura da criança perdida em uma alusão quase religiosa de um avatar que enfrenta a morte e a supera. Sobrepuja com a parca porção de alimento a crueldade da mão invisível dos sistemas sociais. Goreng, o Prometeus castigado se vai e fica a morte e a esperança no olhar atônito dos espectadores.

Fosse mais abraâmico, Dante poderia reclamar sua parte na trama moderna do streaming. Político moderado de Bologna, elogiado por papas, laureado como Adão por suas próprias mãos, mas a voz de Virgílio só se anuncia quando obedece o pórtico do inferno e abandona toda a esperança antes de adentrar os domínios da prisão de Satanás.

“Então devemos partir?
Sim, vamos!”

E permaneceremos parados esperando por Godot ou pelo menino que nos dirá que ele não vem.

Mais absurda que a guerra aos olhos de Becket na espera fatídica de Vladimir e Estragon ou que a ânsia de Dante pela mordaz presença sobrenatural em sua comédia é esta sociedade que se olha no espelho em pedaços pelas casas ou deitada em hospitais. Se Deus morreu sob o vasto bigode austríaco da filosofia moderna, ainda vendemos seus pedaços para abrandar a realidade que nos constrange: não sabemos o que fazer conosco mesmos
Seguimos aquartelados, nos enfrentando e revendo os nossos.

Alguns nos andares superiores e outros nos inferiores.

Falta justiça? Óbvio!

Eduardo Ozório é professor e sua formação é em Língua Portuguesa e suas Literaturas.

Instagram: @ozorio1987

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