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Buffoniando

A caverna do mito

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Foto: Reprodução/Google

Os últimos dias no Brasil não tem sido fácil. O debate político tem ultrapassado alguns limites. Óbvio que a situação da quarentena tem sido de proveito para faturamentos exorbitantes na compra de EPI´s. Mas isso já tem sido alvo de investigações e até prisões de empresários e já estão chegando em políticos. Sobre isso, os noticiários podem corroborar ainda mais essas palavras aqui descritas. Outra questão, era para ter carnaval? Não né!

O isolamento social não foi respeitado como se deveria. Por isso, ficamos esperando o tal pico da pandemia e os números continuam crescente e a postergação da quarentena. Em hipótese alguma, o trabalhador informal deve ser responsabilizado sobre estar na rua trabalhando, ou pelo menos tentando. Em um país tão desigual como o Brasil, difícil é poder ficar de quarentena quem não tem CLT. A necessidade de levar o pão de cada dia para casa, “vale” se arriscar, na cabeça de um pai ou de uma mãe, que geralmente trabalha com o que a sociedade chama de subemprego. Como respeitar o isolamento morando em vielas e casebres que muitas vezes falta água em casa? Como se guardar em uma casa em que a demografia é elevada e por si só já é uma aglomeração? Aí está a necessidade de políticas públicas severas para que essa desigualdade não seja extinta, mas sim atenuada. Vimos exemplos de países em que os pobres possuem melhor qualidade de vida, o pior já passou e a vida volta ao normal.

Outra questão bastante pertinente nesses dias é a questão do medicamento. Ainda não há, pelo menos até no momento em que esse texto está sendo escrito, uma vacina ou um remédio extremamente eficaz. Todos os dias em diversas plataformas científicas e em canais de comunicação especialistas como infectologistas, médicos, biólogos e microbiologistas, alertam que não há uma panaceia. Entretanto, bastou uma possibilidade de um remédio ter algum sucesso no tratamento, que no Brasil ele logo virou o messias em forma de comprimido. Logo a comunidade científica argumentou com dados e provas que ele não era tão eficiente quando se esperava, mas que em alguns casos, ele poderá ser usado. Tudo vai depender do caso clínico específico. Mas no Brasil, o estrago já havia sido feito. Ocorreu de pronto uma corrida às farmácias e juntamente uma enxurrada de propaganda em redes sociais sobre a importância desse medicamento.

Para além da desigualdade social no Brasil, temos que lutar contra a desinformação, muito fácil propagada por causa de baixos investimentos na educação básica e uma enorme evasão escolar. A dificuldade de formar cidadãos plenos  nas escolas é missão árdua. Além de conviver com uma cultura da nota e não do conhecimento. A aceitação de uma informação sem estabelecer uma crítica razoável, faz do Brasil um celeiro de aceitação de informações como verdades, muitas delas sem o menor cabimento. Como disse Kant: estão na menoridade. Ou seja, não possuem autonomia e aceitam tudo numa boa como se fossem uma criança tutelada. Kant escreveu sobre isso no século XVIII. Estamos no século XXI, nos tempos da informação e do conhecimento na distância de um click… e quase nada mudou por essas bandas. Onde não há a luz da razão, salvadores se avolumam, pois, é mais fácil se colocar no lugar da princesa a ser salva do que se esforçar para ser um pouco do príncipe libertador. Enquanto isso, autoridades nos assuntos específicos são desacreditadas e com isso, dois ministros médicos já pediram demissão por não concordarem com o uso indiscriminado do tal medicamento.

Aqui entramos numa questão que remete num tempo ainda distante do nascimento de Cristo: o pensamento de Platão. Segundo o filósofo, temos duas formas de conhecer algo: pelo mundo sensível ou pelo mundo inteligível. O mundo sensível é o mundo dos sentidos, dos cinco sentidos. É o mundo do senso comum, do superficial, do ilusório, do enganoso… da doxa. Segundo Platão, havia uma caverna e nela no seu fundo existia pessoas amarradas que ficavam vendo sombras projetadas na parede. Esses homens pensavam que aquilo era a realidade. Até que um homem se soltou das cordas, fez um esforço incrível, venceu as adversidades e saiu da caverna. Ao sair ele se deparou com o sol e um mundo real. Ficou entusiasmado com tudo aquilo e voltou para dentro da caverna, afim de contar a novidade e chamar todos para fora. Os homens não acreditaram nele e defendiam que o real era o que eles viam na caverna. Assim é nossos dias. Vivemos tempos assim. Tempos em que a opinião e o senso comum sobressai a episteme de uma pesquisa científica. Não adianta um senhor pesquisador que debruça a sua vida nesse intento falar que medicamento x.y ou z não é totalmente eficaz contra o Covid; não adianta falar que pode trazer efeitos colaterais severos; não adianta falar… o senso comum vai aceitar a fala do senso comum que pega um exemplo isolado para tentar reafirmar sua “tese”. Vivemos tempos que as autoridades nos assuntos estão em descrédito. Não importa as publicações em revistas científicas. Na época de Galileu não tinha internet. Atualmente temos e parece que nada mudou. Até os especialistas da Casa Branca argumentam sobre o controverso tratamento com tal medicamento.

A caverna representa as convicções superficiais, a ignorância… a não crítica ou aquilo que é contrário à dialética. Busquemos sempre estar atentos e pesquisando outras fontes. Quanto mais confrontar uma ideia, mais estaremos calçados. Não se trata de posicionamento político. Trata-se de conhecimento. E o conhecimento faz mais estrago que uma PT  (arma) carregada, segundo Mano Browm. Caramba! Já parou para pensar que podemos estar na Caverna do Dragão?

@leandrobuffon

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