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Com o fim da gripe espanhola, Rio de Janeiro teve “o maior Carnaval de todos” como revanche

O comportamento não era totalmente inédito: na Europa também teve festa.

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Foto: Biblioteca Nacional

O ano de 1919 foi marcado como o ano em que chegou ao fim o surto de uma pandemia que foi responsável por matar em torno de 50 milhões no mundo. Estamos falando da gripe espanhola, que no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro, deixou um saldo cruel: 15 mil pessoas mortas. No primeiro ano do surto, em 1918, entre outubro e novembro, o jornal Gazeta de Notícias dizia que a antiga capital federal, tinha virado “um vasto hospital”.

A triste capa do jornal Gazeta de Notícias de 15 de outubro de 1918.

Eram cenas macabras, com cadáveres espalhados pelas calçadas, sendo recolhidos como sacos de lixo por caminhões. Mas um dia o surto enfim acabou.

“Carnaval vai, Carnaval vem, e eu não consigo esquecer o Carnaval que não vivi, não era nem nascido, o Carnaval de 1919”, disse o jornalista Carlos Heitor Cony no ano de 1916. Mario Filho, um jornalista pernambucano é que foi o responsável por transmitir a nostalgia.

“Herdei do Mario essa obsessão pelo Carnaval de 1919, a que não assisti, como não assisti à batalha de Salamina, à morte de César e à invasão otomana na península Ibérica. Não pude aproveitá-lo. Mesmo assim tenho saudade dele”, explicou Carlos, em uma das várias ocasiões em que relembrou o tema.

Recentemente a fala de Carlos foi relembrada em uma reportagem do jornal Folha de São Paulo. De acordo com a matéria, ao fim de 1918, boa parte da população que não morreu e viu o surto partir, tinha criado anticorpos contra aquela versão do vírus H1N1, que já não é mais uma ameaça, depois de tanto tempo que se passou.

Carlos Heitor Cony, o jornalista e escritor.

O fim do surto se deu em dezembro e, em 1º de março, bem no aniversário do Rio de Janeiro, depois de dois meses de tentativas de voltar à normalidade, aconteceu o Carnaval da ressureição. A descrição de revanche foi definida pelo escritor Ruy Castro, que disse ser aquele evento, “a grande desforra contra a pesta que dizimara a cidade”.

Outro evento que também acabava ajudando a aumentar o clima de vingança contra a dor era o fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

“Quando acabou a guerra, teve uma liberação de energia, e o Carnaval se consumou de uma forma estrondosa, como se fossem várias tensões represadas estourando”, diz na reportagem o jornalista e pesquisador David Butter, que está preparando um livro sobre a folia pós-pandemia.

Os blocos, cordões e as chamadas grandes sociedades já existiam na época. No maior tom de escárnio as marchinhas da época zombavam na gripe: “Quem não morreu da espanhola/quem dela pôde escapar/não dá mais tratos à bola/toca a rir, toca a brincar”.

A Gazeta de Notícias de 2 de março de 1919 já era outra, era alegre.

O nome da gripe foi o pretexto perfeito para que as dançarinas que apareciam nas charges dos jornais usassem a fantasia de espanhola. Não importa qual era a roupa, existia uma onda grande de erotismo decorrente da tragédia.

Uma tática comum da sedução usada pelos espertões de plantão, era beijar uma ponta da serpentina e atirá-la para uma mulher do outro lado da pista. Era como se ilustrava a “Marcha do Racha-Lenha”, onde os homens cantavam: “Na minha casa não se racha lenha”. “Na minha racha, na minha racha”, respondiam as mulheres, que acrescentavam: “Na minha casa não se pica fumo”… E bom, a partir daí você já deve ficar livre pra imaginar a réplica.

Hoje, o mundo inteiro vive uma nova pandemia e, com uma boa parte das pessoas presas em casa, existe uma bateria carregando as energias para quando o momento do modo standby acabar.

Ainda que tenha ficado evidente através de um estudo que revelou que no carnaval desse ano, o vírus já estava fazendo a festa nas aglomerações, parece que há quem não se importe com isso, a ponto de criar no Facebook um evento com o título “Carnaval de novo quando tudo isso passar” e que já reúne 78 mil interessados.

Evento do Facebook “Carnaval de novo quando tudo isso passar”.

E você, o que pretende fazer de revanche quando o coronavírus morrer de vez como pandemia no mundo?

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