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Revolta do Arroz – 1918

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Com certeza você já dever ter tido contato com comentários e notícias de que o arroz brasileiro está caro. Não precisa ser pai ou mãe para saber disso. As redes sociais enxovalharam as telas com inúmeros memes. Outra forma de ter contato com esse momento de subida dos preços do arroz são os jornais televisivos, que fazem matérias informativas sobre e/ou convidam economistas para discutir esse tema. Mas por qual motivo esse assunto é tão relevante? Por qual motivo um jovem curioso como você deveria “tá ligado” nesse assunto?

O arroz é uma peça fundamental nas refeições de todo brasileiro. Forma a dupla dinâmica com o feijão, que independente de sua cor está sempre em nossos pratos. O feijão com arroz é tão fundamental no nosso cotidiano que, no futebol, esse termo ganha a conotação de fazer o simples; não inventar; fazer aquilo que não se pode faltar. Fazer o feijão com o arroz é quase uma certeza de um jogo eficiente. Ou seja, é o básico. O arroz é fonte nutricional de carboidrato de baixo índice glicêmico (não eleva as taxas de açúcar no sangue de forma significativa). Precisamos desse carboidrato para produzir energia em nossos trabalhos, estudos e e exercícios.  Já o feijão é rico em proteínas, fibras e ferro, que fortalece nosso sistema imunológico.

No Brasil, o contexto é bem diferente do que iremos abordar nas próximas linhas. A alta do arroz no Brasil deve-se ao período da pandemia. Quando a quarentena foi decretada em países como a China, de grande população, o governo local fechou o mercado de exportação a fim de garantir arroz para sua população. Portanto, o mercado interno manteve abastecido em um momento em que as pessoas estavam mais em casa, cozinhando mais e se alimentando mais. No Brasil isso não ocorreu. Observando uma oportunidade ótima de negócios, nosso arroz foi exportado aos montes, justamente num momento em que se tinha a quarentena mais extremada. Essas exportações promoveram uma ausência desse produto nos mercados. Sendo assim, a lei da oferta e da procura é certeira: pouca oferta e muita demanda, o resultado é preço elevado. Os preços ficaram exorbitantes em um país com uma desigualdade social bem acentuada.

O Japão do final da Primeira Guerra Mundial também enfrentou uma elevação descomunal do preço do arroz. Mas lá não ficaram nas charges e nem no humor. Lá eles partiram para as vias de fato. O Japão era uma potência imperialista que dominava a Manchúria e a Coréia. O Japão fez sua política imperialista por ser, naquele momento, uma potência industrial com um solo que carecia de matéria-prima para seu desenvolvimento. O arroz é o principal alimento da cultura sino. Asim como o trigo para fazer o pão era o principal alimento do francês pré-revolução e o seu aumento foi um dos fatores que desencadeadores da Revolução, o aumento no preço do arroz, também levaram os japoneses para as ruas, mas não chegou a ser uma revolução.

Após os anos extenuantes da Primeira Guerra Mundial, o governo japonês enviou tropas japonesas para lutar na Sibéria ao lado do Exército Branco (russos contrários aos revolucionários de 1917), franceses e britânicos. Era a Guerra Civil contra o Exército Vermelho, bolcheviques revolucionários que derrubaram o governo czarista e tentavam um sistema político, econômico e social alternativo ao capitalismo para o mundo, mas em sua crença era a superação do capitalismo. Era uma Revolução que deveria ser derrubada para não servir de exemplo para os demais e nem causar a falência do capitalismo. Era uma doença que deveria ser eliminada, na cabeça dos seus opositores.

O governo japonês precisava alimentar suas tropas e enviava arroz para o novo front de batalha. Um novo front era tudo que não se queria, pois já haviam passado por anos de esforços durante da Primeira Guerra. Antevendo que o governo precisaria ampliar sua demanda por arroz, os comerciantes praticaram um sumiço artificial do produto, ou seja, não foi por má colheitas e nem por outras catástrofes, mas sim por interesse dos comerciantes que fizeram o produto “sumir”. Esse sumiço automaticamente elevou o preço do arroz. Olha a lei da oferta e da procura aí.  Com produtos escassos, o preço logo disparou.  De acordo com as estimativas, 80% da rizicultura japonesa era consumida por seu povo. Mas com preços elevados, a população pobre logo sentiu no bolso e na mesa. Esse descontentamento começou a virar protesto e o protesto em revolta.

Diante desses acontecimentos, as mulheres entraram em ação. Sim, as mulheres! As mães e esposas que geriam seus lares e sabiam onde, quando e como comprar. Descontentes com os valores, as mulheres da cidade de Toyama foram para as ruas e ocuparam o porto da cidade para não deixar ocorrer a exportação. Logo os jornais noticiaram e essas bravas mulheres serviram para estimular muitas outras mulheres e homens, o que alastrou para todo território nacional. Ondas de confronto contra a força governamental, incêndios de estabelecimentos e agressões avolumaram-se pelo Japão.  Era a Revolta do Arroz que fez até o ministro renunciar. Entretanto, o novo governo de caráter moderado não durou muito, pois o Entreguerras é marcado pela ascensão de regimes totalitários e o Japão também teve seu governo belicista e autoritário.

Daqui também podemos tirar outra lição: a participação das mulheres. Durante muitos anos, as mulheres eram rechaçadas das narrativas históricas. Salvo exceções como Joana D´Arc e Cleópatra. As mulheres foram e são indispensáveis nas lutas históricas cotidianamente. As mulheres em 1789 na França pegaram seus facões e inflamaram ainda mais a Revolução Francesa. Na Revolta do Arroz não foi diferente. Mulheres pobres e insatisfeitas com a economia popular mudaram o curso da história na França e o Japão, assim continuam mudando até os dias atuais.

Sigam: @leandrobuffon e @buffoniando. Pô galera! Ajuda aê!

 

 

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