Beethoven conseguia compor músicas mesmo sendo surdo; explicação impressiona até hoje

Poucas histórias da música são tão impressionantes quanto a de Ludwig van Beethoven. Afinal, como alguém que perdeu a audição conseguiu criar algumas das obras mais famosas da história? A resposta passa por ciência, talento e uma capacidade mental que até hoje impressiona músicos e pesquisadores.

Quando pensamos em Beethoven, muita gente imagina um compositor completamente surdo sentado ao piano escrevendo partituras no escuro absoluto do som. A realidade foi um pouco diferente, mas não menos extraordinária.

A surdez não aconteceu de uma vez

Beethoven começou a perceber problemas auditivos por volta de 1798, quando tinha cerca de 28 anos. Inicialmente eram zumbidos e dificuldades para ouvir conversas em ambientes barulhentos. Com o passar dos anos, sua audição piorou progressivamente até chegar a um estágio de surdez profunda.

A situação o abalou profundamente. Em 1802, ele escreveu um documento que ficou conhecido como Heiligenstadt Testament, uma carta destinada aos irmãos na qual relatava o sofrimento causado pela perda auditiva. No texto, o compositor revela que chegou a cogitar o suicídio, mas decidiu continuar vivendo por acreditar que ainda tinha muito a oferecer à arte.

Então como ele conseguia compor?

A explicação principal está em algo chamado "audição interna". Músicos experientes conseguem olhar para uma partitura e imaginar mentalmente os sons que estão escritos ali. Beethoven possuía essa habilidade em um nível excepcional. Ele conhecia tão profundamente o funcionamento dos instrumentos, das harmonias e das melodias que conseguia "ouvir" a música dentro da própria cabeça.

É um pouco como um escritor que consegue imaginar perfeitamente uma cena sem precisar vê-la ou um arquiteto que visualiza um prédio inteiro antes de ele existir.

Além disso, Beethoven era extremamente metódico. Seus cadernos mostram páginas e mais páginas de esboços, correções e experimentos. Ele não compunha por inspiração repentina. Construía suas obras nota por nota, revisando ideias inúmeras vezes.

O truque do piano que ajudava Beethoven

Existe outro detalhe fascinante. Relatos históricos indicam que Beethoven utilizava um método que hoje conhecemos como condução óssea. Ele apoiava uma haste ligada ao piano e a prendia entre os dentes ou contra o maxilar. Quando as teclas eram tocadas, as vibrações viajavam pelos ossos da mandíbula até o ouvido interno, permitindo que ele percebesse parte dos sons sem depender totalmente dos tímpanos.

É exatamente o mesmo princípio usado atualmente em alguns fones de ouvido de condução óssea.

Embora o método não restaurasse sua audição normal, ajudava o compositor a sentir e interpretar vibrações musicais.

A obra-prima criada no silêncio

O caso mais famoso aconteceu em 1824. Naquele ano, Beethoven estreou a monumental Sinfonia nº 9, considerada uma das maiores composições da história da música. Na época, sua surdez já era severa. Mesmo assim, ele conseguiu concluir uma obra revolucionária, que introduziu um coro em uma sinfonia e apresentou ao mundo a célebre "Ode à Alegria".

Durante a estreia, Beethoven permaneceu de costas para a plateia acompanhando a execução da obra. Quando a música terminou, o público explodiu em aplausos e ovações. O problema era que ele não conseguia ouvir nada. Uma das cantoras da apresentação precisou tocá-lo e fazê-lo se virar para que visse a reação emocionada da audiência. Só então percebeu o sucesso monumental que acabara de alcançar.

O mistério da causa da surdez

Curiosamente, mais de dois séculos depois, ninguém sabe com certeza o que causou a perda auditiva de Beethoven.

Ao longo dos anos surgiram hipóteses envolvendo doenças autoimunes, infecções, problemas ósseos e até intoxicação por chumbo. Pesquisas recentes analisando amostras autênticas de cabelo encontraram níveis elevados de chumbo, o que reforçou uma das teorias mais discutidas atualmente. Ainda assim, não existe consenso definitivo sobre a causa.

Um dos feitos mais impressionantes da história

A ironia é que muitas das obras que transformaram Beethoven em lenda foram criadas justamente quando ele já quase não podia ouvir.

Enquanto a maioria das pessoas associa a música ao sentido da audição, Beethoven demonstrou que a criação musical também pode nascer da memória, da imaginação e de um conhecimento profundo da linguagem sonora. Mais de 200 anos depois, sua história continua sendo um dos exemplos mais extraordinários de superação de uma limitação física na história das artes.

Victor Rodrigues

Editor-chefe, motion designer, editor e repórter da Curiozone desde 2015.

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