17/01/2018

Princesa Isabel, as camélias e a escravidão no Brasil

Todo mundo sabe que a principal figura a ser lembrada quando falamos em abolição da escravatura e liberdade no Brasil é a filha de Dom Pedro II e todo mundo sabe também, que a principal flor que devemos nos lembrar quando falamos sobre esse mesmo assunto são as camélias. Mas por que exatamente essas lindas flores são o símbolo da abolição? É o que vamos entender agora.


Existia no bairro do Leblon no Rio de Janeiro, um quilombo idealizado pelo português José de Seixas Magalhães, um homem de idéias bem avançadas, fabricante de malas e sacos de viagem. Em sua chácara (conhecida como Quilombo Leblon) José cultivava camélias com o auxílio de escravos fugidos e com a cumplicidade dos principais abolicionistas da capital do Império. Essas flores não por acaso, acabaram se tornando por excelência o símbolo do movimento abolicionista no Brasil e da Confederação Abolicionista. Não dava outra, a imprensa quando queria dar ênfase no assunto, sempre citava as camélias...


A flor servia como uma espécie de código de identificação entre os abolicionistas, principalmente quando empenhados em ações mais perigosas, ou ilegais, como auxiliando fugas ou conseguindo esconderijo para os fugitivos. Um escravo podia identificar imediatamente possíveis aliados pelo uso de uma dessas flores no peito, do lado do coração. Naqueles tempos, usar uma camélia como se fosse um broche no peito, no bolso da camisa ou até mesmo tê-la em seu jardim em casa, era uma quase acintosa confissão de fé abolicionista.

Com a proteção (e até mesmo financiamento) do Imperador Dom Pedro II e de sua filha, o quilombo do Leblon nunca chegou a ser seriamente investigado pelas autoridades, dessa forma Seixas sempre enviava à princesa seus subversivos ramalhetes de camélias. 


E como para a elite e os escravocratas a Princesa não era flor que se cheire ela se aproveitando disso, algumas vezes chegou a aparecer em público com uma dessas flores a adornar-lhe a roupa, fato que sempre era noticiado pelos jornais.

Imagina só você, a filha de um grande Imperador adornada com flores que representavam o fim da boa vida das elites. "Que afronta!" - Certamente deviam imaginar os escravocratas, mas Isabel não estava nem aí, queria mesmo era estar lado a lado com a liberdade. 

Por motivo de doença, em 1887, o Imperador Dom Pedro II realizava uma nova viagem a Europa e pela terceira vez a Princesa Isabel assumia então o trono. As idéias abolicionistas fervilhavam no Brasil, o cenário se tornava cada vez mais favorável ao fim da escravidão e a princesa que nunca deixou de demonstrar seu afeto pela causa defensora dos escravos (até porque nunca teve nenhum), se aliava ao movimento tornando-se partidária do abolicionismo. A princesa não só financiava alforria de ex-escravos com seu próprio dinheiro, como apoiava também a comunidade do Quilombo do Leblon, que cultivava camélias brancas, símbolo do abolicionismo.

Em 1888, no clímax da campanha abolicionista, a princesa Isabel decidiu ir mais além e provocar de verdade, organizando uma festa inspirada em comemorações francesas, a Batalha das Flores. O objetivo? Mobilizar a alta sociedade de Petrópolis – sede da família imperial – e arrecadar fundos para a Confederação Abolicionista. No carnaval de 1888, 12 de fevereiro, a princesa, o marido, conde d’Eu, filhos e amigos percorreram a cidade em carruagem ornamentada com camélias.


Recolhiam doações e retribuíam com flores. Sucesso entre os abolicionistas. Indignação entre os escravocratas. O barão de Cotegipe, escravista e presidente do Conselho dos Ministros Imperiais, caiu.


Na foto, ex-escravos enfeitam com camélias a foto da Princesa Imperial.

Não por acaso é documentado em centenas de livros que foram-lhe oferecidos, inclusive, quando da assinatura da Lei Áurea, bouquets de camélias pelo presidente da Confederação Abolicionista, João Clapp, e claro, como não poderia deixar de ser pelo Senhor Seixas.

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