Há 10 anos, internet parava para “salvar” Marina Joyce no que foi o maior surto coletivo do YouTube

Pode glorificar a nostalgia, porque o tempo voa: há exatos 10 anos, no dia 27 de julho de 2016, a internet parou por completo. Se você navega pelas redes hoje e acha que já viu de tudo em termos de teoria conspiratória e exposed, é porque talvez não estivesse online no dia em que o mundo inteiro se uniu no Twitter para tentar "resgatar" uma criadora de conteúdo britânica.

Se você caiu de paraquedas nessa história e não faz ideia de quem a gente tá falando, aqui vai o resumo rápido: Marina Joyce é uma YouTuber de moda e beleza de Londres que tinha um canal supersolar, fofo e alto-astral. Nos anos 2010, ela postava aqueles vídeos clássicos de lookbooks, tutoriais de maquiagem e comprinhas. O estilo dela era superleve, com uma vibe bem menininha e uma energia contagiante que atraía centenas de milhares de inscritos diariamente.

O dia em que a internet virou o FBI

Em meados de julho de 2016, a vibe dos vídeos de Marina mudou do nada. Ela começou a parecer travada, encarando a câmera com um olhar perdido, fala arrastada e movimentos corporais quase mecânicos. No dia 22 de julho, ela subiu o lendário vídeo "Date Outfit Ideas" (Ideias de Looks para Encontros), e foi aí que a chama da paranoia virou um incêndio global.

Na madrugada do dia 26 para 27 de julho, a hashtag #SaveMarinaJoyce atingiu o topo absoluto dos assuntos mais comentados no Twitter mundial. A galera começou a analisar o vídeo quadro a quadro, dando zoom em tudo e criando as teorias mais insanas:

  • O suposto pedido de socorro: Aos 13 segundos do vídeo, internautas aumentaram o volume no máximo e juraram ouvir um sussurro dizendo "help me" (me ajude).
  • Os hematomas misteriosos: Ela apareceu com várias manchas roxas visíveis nos braços e nas costas enquanto mostrava as roupas.
  • Reflexos e objetos no quarto: Teve gente dando zoom no olho da YouTuber afirmando ver a sombra de um homem armado segurando um roteiro. Outros apontavam para um objeto no canto do quarto dizendo ser uma espingarda.
  • O evento suspeito: Para completar o caos, rolou um tweet na conta dela chamando os fãs para um encontro às 6h da manhã em Bethnal Green, em Londres. Isso foi o bastante para a internet decretar: "É uma armadilha de sequestradores ou do Estado Islâmico".

O pânico foi tão real que influencers gigantes do mundo todo começaram a tuitar sobre o assunto, pedir intervenção policial e recomendar que ninguém fosse ao tal evento.

O balde de água fria

O surto coletivo tomou uma proporção tão inacreditável que a própria Polícia de Enfield, em Londres, teve que enviar uma patrulha até a casa da garota no meio da madrugada. Às 3h50 da manhã (horário local), as autoridades postaram no X/Twitter confirmado que tinham visitado Marina, que ela estava segura, bem e em casa com a família.

Nos dias seguintes, a poeira começou a baixar e a verdade veio à tona. Não tinha cativeiro, não tinha sequestrador e não tinha código secreto. Marina estava passando por um período extremamente delicado de saúde mental e enfrentando fortes crises de ansiedade, o que explicava a mudança no comportamento, os gestos travados e a desorientação. Os hematomas eram resultado de uma queda boba na roça durante um passeio.

10 anos depois: o que esse caso ensinou pra web?

O caso Marina Joyce se tornou o maior estudo de caso de como a psicologia das multidões na internet funciona. Em poucas horas, pequenos detalhes descontextualizados foram somados por milhares de pessoas bem-intencionadas (mas hiperativas), transformando um drama pessoal de saúde mental em um filme de suspense hollywoodiano.

Nove anos depois, em 2025, Marina voltou a comentar sobre o assunto de forma madura em suas redes, reforçando o quanto a internet pode ser acolhedora, mas também assustadora quando perde o controle da realidade.

Hoje, no aniversário de 10 anos desse capítulo histórico da cultura pop digital, fica a provocação: com os algoritmos atuais e as IAs de hoje em dia, um surto coletivo desses seria desmentido mais rápido ou ganharia proporções ainda piores? Não se esqueça de deixar seu comentário nas redes sociais da Curiozone.

Victor Rodrigues

Editor-chefe, motion designer, editor e repórter da Curiozone desde 2015.

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