Tem uma espécie de ave no Reino Unido que está precisando de praticamente um milagre para continuar existindo por lá. E, aparentemente, o milagre atende pelo nome de AU, tem 10 anos, voa pelos céus da Inglaterra e está trabalhando em um ritmo que deixaria muito passarinho por aí com inveja.
AU é um macho de tartaranhão-caçador (Circus pygargus), uma ave de rapina migratória conhecida em inglês como Montagu’s Harrier. De acordo com informações divulgadas pela Royal Society for the Protection of Birds (RSPB), ele já ajudou a criar pelo menos 16 filhotes desde que começou a se reproduzir, em 2018. Só nos últimos dois anos foram dez. Em 2026, foram nada menos que seis filhotes com duas fêmeas diferentes. E o detalhe que transforma essa história em algo extraordinário: AU é atualmente o único macho adulto da espécie conhecido por estar se reproduzindo no Reino Unido.
Ou seja: enquanto ambientalistas, agricultores e pesquisadores trabalham para impedir que a espécie desapareça do país, AU aparentemente decidiu resolver a parte da reprodução por conta própria.
O rapaz voltou e não perdeu tempo
A história começou a ganhar contornos ainda mais impressionantes em 2025.
Naquele ano, depois de um longo período sem reprodução bem-sucedida da espécie no Reino Unido, AU voltou a um ponto secreto de uma propriedade rural inglesa e conseguiu criar quatro filhotes com uma fêmea que havia nascido na França. Foi a primeira reprodução bem-sucedida do tartaranhão-caçador no Reino Unido desde 2019.
AU havia nascido em Wiltshire, na Inglaterra, em 2016, em um ninho protegido pela própria RSPB. Seu pai era um macho parcialmente melanístico chamado Mel. Desde então, o pequeno AU cresceu, começou a se reproduzir em 2018 e passou a ser identificado pelos pesquisadores graças ao anel colorido com as letras “AU” em sua perna.
Em 2026, ele voltou novamente para a Inglaterra. E aí começou o verdadeiro espetáculo: segundo Mark Thomas, responsável pela espécie na RSPB e pesquisador que trabalha há cerca de duas décadas com os “Monties”, como os tartaranhões-caçadores são carinhosamente chamados pelos conservacionistas britânicos, AU passou dias realizando impressionantes voos de cortejo.
Ele subia centenas de metros no céu e depois mergulhava, fazia curvas e piruetas, exibindo as asas para chamar a atenção das fêmeas. Depois de cerca de dez dias de apresentações, duas fêmeas apareceram.
E não foi exatamente uma seleção tranquila.
Três fêmeas chegaram a disputar a atenção de AU. Duas acabaram permanecendo e fizeram ninhos com ele. Os ninhos ficaram separados por aproximadamente um quilômetro, mas tinham algo importante em comum: o mesmo pai.
Resultado da temporada: seis filhotes, três em cada ninho.
Eram quatro fêmeas e dois machos.
Um pai com trabalho dobrado
AU não ficou apenas no papel de “pai biológico”.
Como os dois ninhos estavam ativos simultaneamente, o macho precisava buscar alimento e alimentar os filhotes dos dois lados.
Segundo Mark Thomas, ele costumava alimentar um ninho duas vezes e depois voar até o outro para fazer a mesma coisa. Depois, voltava e repetia o processo.
E não estamos falando de filhotes que ficam tranquilamente esperando uma raçãozinha.
Os tartaranhões-caçadores são aves de rapina e caçam pequenos animais. A RSPB descreve a espécie como uma ave migratória de voo delicado e flutuante, que costuma caçar sobre campos e áreas abertas.
Os ninhos, por sua vez, ficam no chão.
É aí que começa outro problema enorme.
O ninho pode estar escondido no meio da plantação
Os tartaranhões-caçadores costumam retornar da África para a Europa durante a primavera para se reproduzir. No Reino Unido, eles frequentemente utilizam plantações agrícolas, especialmente áreas de cereais.
Isso cria uma situação complicada: o lugar que parece perfeito para a ave também pode ser extremamente perigoso para seus filhotes.
Uma plantação pode ser colhida justamente quando os jovens ainda estão no ninho.
E uma colheitadeira passando pelo local errado pode destruir tudo em questão de segundos.
A situação ficou ainda mais complicada com a antecipação das colheitas associada a verões mais quentes e secos. A própria RSPB alerta que a mudança no calendário agrícola aumenta o risco de ninhos serem destruídos acidentalmente por máquinas.
Por isso, encontrar um ninho não significa simplesmente comemorar.
É aí que começa o trabalho dos pesquisadores: a RSPB monitora os locais em parceria com os agricultores e instala cercas de proteção ao redor dos ninhos para impedir o acesso de predadores terrestres. No caso dos dois ninhos de 2026, a área foi protegida enquanto os filhotes cresciam.
E o local exato? Continua em segredo.
A RSPB mantém a localização protegida justamente para evitar perturbações e aumentar as chances de sobrevivência das aves.
A situação da espécie é realmente preocupante
Globalmente, o tartaranhão-caçador não está classificado como uma espécie ameaçada de extinção. A classificação global é de “Pouco Preocupante” (Least Concern).
Mas isso não significa que esteja tudo bem no Reino Unido, muito pelo contrário. Isso porque a população britânica sempre foi pequena, mas chegou a aproximadamente 30 casais reprodutores nos anos 1950. Depois veio uma forte queda. A espécie desapareceu como reprodutora em determinados períodos e, mais recentemente, passou por outro período crítico: não houve reprodução bem-sucedida no Reino Unido entre 2020 e 2024.
Em 2011, foram registrados nove ninhos bem-sucedidos, o maior número recente. Depois disso, os números despencaram. Em 2021, o tartaranhão-caçador foi colocado na Lista Vermelha britânica de aves sob maior risco de conservação.
Então, quando seis filhotes conseguem deixar dois ninhos em um único ano, a notícia é muito maior do que parece.
São seis novos indivíduos em uma população que, no Reino Unido, praticamente cabe numa sala.
E agora tem tecnologia no meio
Os pesquisadores também fizeram algo inédito: em julho de 2026, a RSPB colocou rastreadores via satélite em dois dos filhotes, um de cada ninho. Foi a primeira vez que jovens tartaranhões-caçadores receberam esse tipo de equipamento no Reino Unido.
Os dispositivos custam cerca de £ 3 mil cada e permitirão acompanhar os animais durante a migração. A viagem de ida até as áreas de inverno na África pode chegar a aproximadamente 3.500 milhas, algo perto de 5.600 quilômetros, segundo a RSPB.
A ideia é descobrir coisas que os pesquisadores ainda não conseguem acompanhar de perto: por onde os jovens passam, quanto tempo permanecem em cada lugar, quais rotas utilizam, se sobrevivem à viagem e, principalmente, se algum deles volta ao Reino Unido para se reproduzir.
É como colocar um pequeno GPS numa das peças mais importantes do quebra-cabeça.
E os filhos de AU já estão voltando
Há outro motivo para os pesquisadores estarem otimistas. Três dos quatro filhotes que AU ajudou a criar em 2025 já foram vistos novamente no Reino Unido em 2026. Um deles, chamado JP, foi observado em maio no local onde nasceu. Outro, JJ, foi fotografado em Oxfordshire em julho. A fêmea JO também foi vista novamente na região de seu antigo ninho.
Eles ainda não estão em idade reprodutiva, mas existe uma possibilidade importante: que retornem em 2027 e, finalmente, comecem a formar uma nova geração de tartaranhões-caçadores britânicos.
E isso é justamente o que os pesquisadores estão esperando, uma vez que AU pode estar fazendo um trabalho espetacular, mas uma espécie não pode depender eternamente de um único macho.
O “garoto de ouro” pode ter iniciado uma reação em cadeia
O nome AU não foi escolhido por acaso. Ele vem das letras presentes em seu anel de identificação e coincide com o símbolo químico do ouro.
Por isso, os pesquisadores passaram a tratá-lo carinhosamente como o “garoto de ouro”.
E, olhando para os números, o apelido faz bastante sentido. AU tem pelo menos 16 filhotes registrados desde 2018. Dez nasceram nos últimos dois anos. Em 2025 foram quatro. Em 2026, mais seis. E três de seus filhotes de 2025 já voltaram ao Reino Unido.
Para Mark Thomas, o macho é simplesmente extraordinário. O especialista afirmou que AU está, na prática, “sustentando” a população britânica da espécie. A RSPB, por sua vez, descreveu o macho como uma peça fundamental para a recuperação dos tartaranhões-caçadores no país.
Mas os próprios pesquisadores sabem que ainda não é hora de comemorar como se o problema estivesse resolvido.
A espécie continua extremamente rara no Reino Unido. Seus ninhos permanecem vulneráveis, a agricultura continua sendo um desafio e as aves ainda precisam enfrentar uma longa migração entre a Europa e a África.
Ainda assim, depois de anos praticamente sem reprodução, 2025 e 2026 trouxeram algo que parecia cada vez mais difícil de encontrar: esperança.
E ela tem asas, penas cinzentas, olhos amarelos e atende pelo nome de AU. No momento, o futuro do tartaranhão-caçador britânico depende de muita gente: pesquisadores, agricultores, voluntários, tecnologia e proteção dos ninhos.
Mas é impossível ignorar que, no centro de toda essa história, existe um macho de 10 anos que simplesmente parece ter decidido que a espécie não vai desaparecer tão cedo.