Suécia transforma lixo em energia e se torna referência mundial em gestão de resíduos

Desde o início da década de 2010, a Suécia mantém um dos sistemas de gestão de resíduos mais eficientes do planeta. Menos de 1% do lixo doméstico gerado no país vai para aterros sanitários. O modelo combina alta taxa de reciclagem material com forte recuperação de energia por meio da incineração, transformando o que antes era problema em recurso para aquecimento e eletricidade.

De acordo com dados da Avfall Sverige (associação sueca de gestão de resíduos), em 2024 o país tratou cerca de 4,5 milhões de toneladas de resíduos domésticos. Desse total, aproximadamente 54,8% foi destinado à recuperação de energia (incineração com produção de calor e eletricidade), 26,6% à reciclagem de materiais, 17% ao tratamento biológico (como compostagem e digestão anaeróbica) e apenas 1,6% ao aterro. 

A Agência Europeia do Ambiente (EEA) corrobora: a incineração responde por cerca de 59% do tratamento de resíduos municipais na Suécia, enquanto o aterro fica abaixo de 1%. A taxa de reciclagem material (preparação para reutilização e reciclagem efetiva) gira em torno de 39-42% em dados recentes, o que está ligeiramente abaixo da média da União Europeia, mas o impacto ambiental dos aterros é mínimo.

Capacidade excedente leva à importação de lixo

O sucesso tem um lado curioso: a Suécia construiu tanta capacidade de incineração que, em alguns anos, o lixo gerado internamente não é suficiente para manter as usinas operando em plena carga. Por isso, o país importa resíduos de outros países europeus.

Em 2024, a Suécia importou 3,86 milhões de toneladas de resíduos, principalmente do Reino Unido, Noruega e Itália. Os países exportadores pagam à Suécia pelo serviço de tratamento, evitando aterros caros e emissões de metano em seus territórios. Em anos anteriores, o volume de importação ficou entre 1,4 e 2 milhões de toneladas anuais, segundo a Agência Sueca de Proteção Ambiental. 

Essa prática transforma o lixo em commodity. A energia gerada pelas usinas de waste-to-energy (incineração com recuperação energética) aquece centenas de milhares de residências por meio de redes de aquecimento urbano (district heating).

Cinzas tóxicas retornam ao país de origem

Nem tudo é aproveitado. Após a queima, sobram cinzas, especialmente a “fly ash” (cinza volante), que pode conter dioxinas, metais pesados e outros contaminantes. Parte dessas cinzas é tratada e reutilizada (por exemplo, na extração de metais como zinco ou em construção), mas a fração mais tóxica costuma ser enviada de volta aos países que exportaram o lixo.

Relatos antigos e confirmados em acordos bilaterais, especialmente com a Noruega, mostram que as cinzas perigosas retornam para descarte controlado no país de origem. Isso evita que a Suécia assuma sozinha a responsabilidade pelo resíduo perigoso gerado a partir de lixo importado. 

Um modelo com críticas e desafios

Especialistas elogiam a Suécia por praticamente eliminar os aterros e reduzir emissões de metano, um gás de efeito estufa muito mais potente que o CO₂. No entanto, o modelo não é isento de críticas. 

Organizações como Zero Waste Europe argumentam que a dependência da incineração pode desestimular a reciclagem máxima de materiais e ainda gera emissões de CO₂, embora com filtros modernos que reduzem significativamente poluentes.

A Suécia continua avançando: novas regras de 2024 exigem coleta separada de mais frações de resíduos para tentar alcançar a meta da UE de 55% de reciclagem material até 2025.

O caso sueco mostra que, com políticas consistentes (taxas altas sobre aterros, educação ambiental desde a escola e investimento em tecnologia), é possível tratar o lixo como recurso. Outros países, especialmente na Europa, observam o modelo com interesse, mesmo que nem todos tenham condições de replicá-lo integralmente.

Victor Rodrigues

É tempo de viver intensamente, estar pronto para novas experiências, acreditar num futuro melhor e entender que tudo passa nessa vida até a uva.

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