Supermercados lotados podem distorcer a percepção da real situação da economia

Supermercado cheio, carrinho transbordando, fila no caixa. A cena é comum e, para muita gente, automática: “a economia está bombando”. Só que essa leitura, apesar de intuitiva, pode estar completamente errada. Em alguns casos, ela aponta justamente o contrário. Um país onde o consumo se mantém alto, mesmo com milhões de pessoas endividadas, pode estar vivendo um tipo de crescimento artificial, sustentado mais por crédito do que por renda real.

Os dados mais recentes ajudam a desmontar essa percepção. Segundo levantamento divulgado este ano pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) em parceria com o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), o número de brasileiros inadimplentes chegou a 81,7 milhões. Isso representa quase metade da população adulta do país. Em 2016, esse número era de cerca de 59 milhões. Ou seja, houve um crescimento de aproximadamente 38% em uma década, muito acima do crescimento populacional no período.

A própria CNDL destaca que o avanço da inadimplência indica deterioração da capacidade de pagamento das famílias. Em termos simples: mais gente está consumindo sem conseguir pagar depois. Isso coloca em xeque a ideia de que consumo elevado, por si só, seja um sinal positivo.


Para entender o fenômeno, é preciso separar dois conceitos que costumam ser confundidos: volume de consumo e qualidade do consumo. O primeiro é o que vemos no dia a dia. O segundo é o que realmente importa para a economia.

Supermercados cheios podem significar aumento de renda e emprego, mas também podem refletir outros comportamentos. Um deles é a antecipação de compras em momentos de inflação, quando consumidores tentam se proteger de aumentos futuros de preços, especialmente nos atacadistas. Outro é o uso crescente de crédito, como cartão parcelado e limites rotativos, para manter o padrão de consumo mesmo com orçamento apertado.


É quando você vê as Lojas Americanas lotadas em época de páscoa, mesmo com os ovos de chocolate absurdamente caros e sem a qualidade de antes.

De acordo com dados do Banco Central do Brasil, o endividamento das famílias brasileiras permanece em patamares elevados, mesmo com oscilações recentes na taxa de juros. Já o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que o consumo das famílias continua sendo um dos principais motores do PIB. O problema é que esse consumo nem sempre vem acompanhado de aumento proporcional na renda disponível.

Na prática, isso cria um cenário paradoxal: a economia aparenta estar aquecida quando observada superficialmente, mas apresenta sinais de fragilidade estrutural quando analisada com mais profundidade. É o que economistas costumam chamar de consumo resiliente, porém financeiramente deteriorado.

Outro ponto relevante é o tipo de consumo. Em contextos de aperto financeiro, há uma migração para itens essenciais, como alimentos e produtos básicos. Isso mantém supermercados movimentados, mas não necessariamente indica prosperidade. Pelo contrário, pode sinalizar que as famílias estão abrindo mão de consumo discricionário, como lazer e bens duráveis, para priorizar o básico.

Além disso, especialistas apontam que a percepção visual pode enganar. Um supermercado cheio em determinados horários ou regiões não reflete, necessariamente, o comportamento médio da economia. Para medir de fato a saúde econômica, são analisados indicadores como renda real, nível de emprego, inflação e inadimplência.

Nesse sentido, o crescimento expressivo do número de negativados no Brasil funciona como um alerta. Ele indica que, apesar do consumo ainda estar presente no cotidiano, uma parcela significativa da população está operando no limite financeiro.

Em outras palavras: supermercado cheio não garante economia forte. Quando esse cenário convive com níveis recordes de inadimplência, o mais provável é que o país esteja diante de um desequilíbrio. O consumo continua acontecendo, mas com bases mais frágeis do que aparenta.

E é justamente aí que mora o risco. Porque uma economia sustentada por crédito e endividamento tende a perder fôlego mais cedo ou mais tarde.

Victor Rodrigues

Editor-chefe, motion designer, editor e repórter da Curiozone desde 2015.

Reportagem Anterior Próxima Reportagem

Formulário de contato