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The Boys

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The Boys estreou em 2019 como série e não decepcionou. Embora a história tenha sido adaptada para o formato série, a história central e seus meandros são muito bem contadas e bem amarrada. A HQ é lembrada por sua violência física e de cunho sexual bem intensas, nesse formato a questão sexual foi mais atenuada, mesmo sendo uma série adulta. Logo no primeiro episódio, Luz Estrela, a nova integrante dos Sete foi vítima de um forte assédio de Profundo, mas na HQ, Luz Estrela foi vítima de um estupro coletivo. A série foi escrita por Erick Kripke, mesmo criador de Supernatural. The Boys também lembra bastante a forma como foi adaptado Watchmem, filme de 2009 dirigido por Zack Snider.

A história se passa entre os anos 2006-2008 em um Estados Unidos fictício (ou nem tanto assim!) em que há pessoas com poderes extraordinários. Os Sete, time de primeiro escalão de heróis, é gerenciado por uma empresa de grandíssimo porte: Vought. Essa empresa cuida da imagem, monetização das redes sociais, faz filmes e comerciais com os heróis, assina contrato de proteção mediante ao pagamento em milhões, cria brinquedos, ou seja, tudo gira em torno da capitalização.  A diferença é que nessa paródia satírica da Liga da Justiça, os heróis são perversos, corrompidos, sem empatia, cínicos e desprezam os meros mortais. E outro ponto importante, os heróis são construídos com marketing e Composto V, uma substância injetada nas crianças faz despertar os poderes extraordinários. Diferente da Liga da Justiça, Os Sete seria a primeira divisão de heróis, sendo assim, tendo heróis menos poderosos que formam uma segunda divisão com menos investimento midiático e com contratos mais baratos.

O tal do Composto V era injetado em crianças em troca de pagamento aos seus pais, uma senhora crítica. Por um lado, a crítica recai sobre a mercantilização de tudo. Tudo vira mercadoria, inclusive os filhos, já que os pais permitiam isso. Essa situação gerava a falsa aparência que crianças aleatoriamente por causa da probabilidade genética da evolução, nascessem com dons maravilhosos. E esses dons deveriam está à disposição dos mais fracos. Por outro lado, a mercantilização em favor dos testes com a substância retrata uma sociedade com ampla desigualdade social, o que permite com que seus pais em nome de uma sobrevivência financeira permitissem a injeção desse composto.

Os Sete tem como personagens centrais: Capitão Pátria, um SuperMan imoral e amoral; Luz Estrela, a única que manteve seus ideias e moralidade; Maeve é a Mulher Maravilha ao contrário e é atormentada pelo que já fez com os Sete, buscando não ser mais aquela pessoa; Black Noir, inspirado no Batmam, sombrio e misterioso; Profundo, a versão babaca de Aquaman; Trem-Bala, inspirado no Flash e extremamente apegado ao sucesso, fama, dinheiro.

Os Sete alimentam-se, principalmente o Capitão Pátria da idolatria e o medo das pessoas. Sendo esse o mais poderoso de todos, seu desprezo pelas vidas humanas é tão grandiosa que se assemelha aos deuses gregos da mitologia. Embora super, eles possuem: inveja, ciúmes, rancor, raiva, hostilidade, são vingativos, etc. Ou seja, possuem características extremamente humanas, sendo que possuem poderes indescritíveis. Fato que não se vê na Liga da Justiça, como a moralidade e a ética sendo sempre colocada em ação em prol do salvacionismo e proteção da humanidade. Capitão Pátria sente prazer em matar. Mas não se engane se é matar malfeitores, não. Mata civis inocentes e qualquer um que ouse ficar em seu caminho, mesmo com uma mera opinião.

É muito comum o ódio ao Capitão Pátria. Assim como é muito comum a simpatia por Luz Estrela e também é comum se compadecer pela mudança buscada por Meave. Para entender essa diferença é preciso suspender qualquer juízo ou emoção. É para você concordar com o Pátria? Não! É para você entender a razão dele ser assim. Pátria tornou-se quem ele é por causa da sua criação. Foi separado de sua família e criado como um cobaia em laboratório sem atenção, sem afeto, só com testes e experimentos. O que já deixaria qualquer ser humano na defensiva emocionalmente e desapegado da humanidade, isso tornou-se mais potencializado por conta dos seus poderes. Pátria se vê e se entende como um deus. Esse traço psicótico não é genético, foi construído todos os dias da sua infância e adolescência. Diferente de Luz Estrela, que é gentil, amável, solidária e ética. Sua criação foi no seio familiar colaborando com as atividades da fazenda, sendo participante ativa das tarefas e do convívio social. Essa situação faz e fez toda a diferença.

The Boys, na verdade é um grupo de humanos que detestam a Vought e os Sete. Liderados por Bruto, que possui ligações com a CIA, sua missão é implodir a empresa e os Super. Esse grupo não existe oficialmente. É um grupo que atua nas sombras. Bruto odeia os Sete, principalmente o Capitão Pátria pelo que fez com sua Esposa (Becca Bruto). Outro personagem central e membro do bando é Hughie Campbell, que teve sua namorada pulverizada por Trem-Bala quando estava em atuação. Foi um acidente? Sim. Mas como a empresa conduziu o processo indignou ainda mais Hughie que se juntou com Bruto na caçada aos Sete.

A série nos faz refletir sobre muitos aspectos de nossas vidas: a sociedade do espetáculo (conceito de Guy Debord), em que nossas vidas são mediadas por imagens e que fazemos de tudo para aparecer, parecer ser e parecer ter; o tribunal da internet, local que se destinam informações para a idolatria ou linchamento; o poder da mídia e da propaganda criando e destruindo reputações; a mercantilização da vida; a vida vazia dos Sete, mesmo tendo alcançado um sucesso econômico estratosférico, seus personagens são carentes de afeto e emoções verdadeira e essa conquista do tudo seguida de vazio, permite a promoção do desapego e a desprezo com os mais fracos. Na verdade, os Sete conquistaram o que os outros queriam que eles conquistassem, mas era de fato o que eles queriam?

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