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Buffoniando

As pancadas que doeram na alma do homem

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Quando ainda era um candidato para ocupar uma vaga em uma universidade pública, comecei a ser mais crítico e mais observador em relação ao que aprendia e apreendia. Mais maduro do que as fases anteriores da fase escolar e já com uma certa bagagem, as reflexões pulsavam diante das aulas, assim como também confrontava ideias lá do passado com as informações mais aprofundadas de conteúdos que já tinha visto. Percebi que a vida universitária se aproximava e que minha postura de pensar, de ficar inquieto e curioso era cada vez maior.  Certo dia numa aula sobre o século XIX, pensei ter feito uma ótima reflexão e só percebi que estava muito atrasado, pois Freud já tinha feito isso bem antes de mim. Mas fiquei feliz por ter tido uma linha de raciocínio que o pai da psicanálise tinha elaborado e chamou de: As três feridas narcísicas.

Mas antes de qualquer explanação, temos que saber quem é Narciso. Esse personagem da mitologia grega era muito belo e adorava ser o centro das atenções. Adorava ser venerado e não se importava com os outros. Por causa da sua beleza, muitas mulheres eram apaixonadas por ele. Eco, uma ninfa, também amava Narciso. Mas ele não dava a mínima. O preço da beleza para ele era que nunca pudesse contemplar sua imagem, o que era na verdade uma maldição. Certo dia andando de maneira desavisada, Narciso olhou para um lago e a superfície da água funcionou como espelho e ficou paralisado. Temos dois finais de história e ambos levam a mesma lição: a primeira é que o nosso personagem ficou paralisado até morrer de inanição. A segunda é que ele desequilibrou-se e caiu no lago e morreu afogado. Esse mito nos leva a ver a arrogância humana diante do mundo e dos outros.

Quando Freud analisou e escreveu sofre as feridas, ele analisou sobretudo o Ocidente e sua formação filosófica sobre o mundo. Antes mesmo de Freud, Aristóteles já colocava o homem num pedestal superior aos demais, uma vez que todos os outros animais são zoo e o homem é antropo. O que diferencia dos demais é a capacidade racional, de pensar a ética e a formação política. O advento do cristianismo e a sua elevação de religião oficial do Império romano colaborou para lentamente colocar o homem no centro das observações. Mesmo com a chegada da Idade Média e o teocentrismo clássico que a permeou, o homem embora uma criatura, era a maior criação de Deus. Mas foi somente a partir do Renascimento Cultural (XIV-XVII) que o antropocentrismo ganhou força. O homem era o cara! E quem disse isso foi o homem. Ser a imagem e semelhança de Deus e também ser equiparável ao criador pela capacidade da razão, colaborou para o narcisismo moderno do homem.

Entretanto, mesmo  Renascimento e a Idade Moderna ocasionou a primeira ferida: o heliocentrismo. Acredita-se desde a Antiguidade que a Terra era o centro do universo e que todos os outros planetas giravam em torno dela. Essa visão (geocêntrica) amplamente defendida pela Igreja durante a Idade Média. Até que a evolução da ciência e os estudos astronômicos de Galileu Galilei comprovou que a Terra não é o centro, mas sim o Sol e os demais planetas, como a Terra, gira em torno dele.  Então… se a Terra não é o centro, então quem sou eu que habito nela? Eis a questão! Se a Terra é só mais uma no universo, quem é o homem? A primeira ferida no ego e na prepotência humana.

Passado alguns séculos, chegamos no XIX e Darwin depois uma vida de estudos, apresentou uma das maiores e revolucionárias obras da história da humanidade, A origem das espécies. Ao contrário do que se pensa, Darwin era um homem religioso, cristão. Mas seu olhar científico ao analisar a vida na Terra feriu o ego e o narcisismo do homem pela segunda vez. De acordo com Darwin, o homem é apenas mai um nesse planeta como todos os demais. Ele é tão fruto de um ancestral comum igual aos demais vivos e extintos  na Terra. O homem é apenas um acaso dentro da probabilidade do evolucionismo e da seleção natural das espécies. Embora com o telencéfalo mais evoluído que os demais, o homem é apenas um animal que não gosta daquilo que ele não se vê, assim como Narciso. Nesse ponto me lembro do Dr. Manhattan – personagem fictício de Watchmem -, em um dos seus diálogos ele diz: “Se a humanidade deixar de existir, o universo sequer irá notar”.

A terceira ferida veio muito seguida da segunda, na virada do XIX para o XX e a descoberta de que o homem não é senhor nem de si mesmo. Freud nos apresentava o inconsciente. O autor argumentou que esse tal inconsciente não ocupa um lugar na nossa cabeça e não é uma área do nosso cérebro. É um lugar que só pode ser acessado por meio da fala e pela análise. Diante disso, o Ocidente tomou conhecimento que muitos sintomas e ações que os indivíduos possuíam ou fazia, tinham origem no inconsciente e não tinha como eles domarem naquele momento. O nosso Narciso foi ferido mais uma vez. Quem é o homem? É um animal como outro qualquer, não é o centro e não é senhor de si mesmo. A quebra da ilusão de quem éramos alguma coisa causou paralisia, angústia e mal-estar na humanidade e agora, vivemos buscando novos nortes e “certezas” para nos apegar. Queria ter muito pensando nisso de forma inédita, mas perdi para Freud. Como prêmio de consolação, aceito ter “perdido” para o pai da psicanálise. Por uma simples razão: quem sou perto desses pensadores. Se tenho o narciso ferido por causa disso? De modo algum! Fico é feliz de em um momento da minha vida poder ter pensado algo, que não inédito, próximo de um pensador imortal. Como pensava Aquiles: O que fazemos em vida ecoa na eternidade.

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