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Viva o povo brasileiro!

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O texto de hoje é uma contribuição do meu camarada e professor Leandro Reis. Leandro é formado em Biologia e também em Farmácia. Suas redes sociais são: @lreducacaosaude e lrsauderio.

 

Por que não respeitamos o distanciamento social e a quarentena?

 

“A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para a promoção, proteção e recuperação”.

Constituição Federal de 1988, artigo 196.

Nos idos de 1918 enquanto passávamos pela Primeira Guerra Mundial, o mundo começava a encarar um grande inimigo em comum.  Pertencesse a “tríplice” que fosse, o pior dos inimigos tornara-se o mesmo, e ainda desconhecido. Uma grave perturbação à saúde inicialmente conhecida como “febre das trincheiras” abatia soldados em curto espaço de tempo, e logo espalhou-se por toda Europa. Uma carta descoberta anos mais tarde, traz relatos de um médico americano à cerca da situação dos militares acometidos, descrevia-a  de início como uma gripe comum, passando à uma pneumonia “jamais vista”, em que os sintomas evoluíam rapidamente da falta de ar à cianose (coloração arroxeada da pele por diminuição da oxigenação) e morte.

 “Era extremamente rápida a velocidade de contágio, o período de incubação era curto e o número de pessoas acometidas pela moléstia, muito elevado, como também o grau de letalidade”

 

              Com o acometimento dos militares em plena Grande Guerra, a censura fora imposta e a exceção da maioria dos países, somente a Espanha (neutra na guerra) relatava os agravos gerados pela doença que emergia. Posteriormente com o aumento do número de óbitos foi impossível manter em segredo o imenso agravo.

Enquanto isso, na então capital da república, o Rio de Janeiro, as notícias que chegavam eram ignoradas e tratados com descaso. Segundo GOULART (2005), havia um sentimento de imunidade e tratamento anedótico baseado na desinformação da população e que esta seria uma gripezinha simples doença “limpa-velhos” tratada com alarde desnecessário.

              Em setembro de 1918, o Rio de Janeiro contava com uma população de aproximadamente 911 mil habitantes, onde 66% ficara acamada por conta da gripe pneumônica e  em 22 de outubro de 1918 , neste único dia, foram atestados 930 óbitos na, num total de aproximadamente 15 mil mortos.

Para o diretor geral da Saúde Pública Nacional, Carlos Pinto Seidl (1867-1929) ainda no início da pandemia de 1918, a gripe pneumônica (que viria ficar conhecida como “gripe hespanhola” por questões políticas),  observada na Europa e na África era diferente da patologia que afetava os brasileiros, e que o isolamento em terras tupiniquins seria desnecessário e cuja adoção de medidas profiláticas individuais como a antissepsia da boca e do nariz além pequenas condutas de higiene ,seriam o suficiente para evitar o contágio. Havia tantos outros médicos concordantes quanto discordantes em solo pátrio.

Em 1919, apesar das exigências de quarentena pela doença, continuou a afirmar que estes atos “não eram possíveis, nem legais, nem científicos”, se contradizendo ao afirmar que a gripe pneumônica menosprezava todas medidas tomadas, e que deveriam ser interrompidas todas as relações socias e contatos oriundos destas.

Seidl chegou a solicitar a censura dos jornais que a seu ver, introduziam pânico na sociedade carioca, ameaçando a preservação da ordem pública. Contudo, ao ser tomado como bode expiatório, seria destituído de seu cargo, tendo sido convidado para o mesmo Carlos Chagas, que recusou. Todavia não demorou para Seidl renunciar ao cargo dando lugar a um novo diretor da Saúde Pública.

Estava instaurado o caos na cidade: Hospitais lotados, famílias inteiras acamadas, corpos amontados nas ruas, falta de caixões e o principal, a falta de esperança provocada pela ausência de atitudes eficazes por parte dos provedores de saúde pública.

Resumidamente notamos que no Rio de Janeiro em plena pandemia:

  • Havia restrição às informações, inclusive pedidos por censura;
  • O alto escalão da Saúde Pública julgava desnecessário o isolamento social;
  • A doença era tratada com descaso e como piada;
  • O carioca se via como imune.

Somente em 1988 , com a criação do Sistema Único de Saúde (SUS), o brasileiro passa a  ter de fato o direito à saúde assegurado pelo Estado.

No início do século passado , antes mesmo da gripe pneumônica, o Rio de Janeiro passava por graves  problemas de saúde, muitos advindos do crescimento desorganizado e da falta de saneamento básico, basta recordarmos das condutas do sanitarista Oswaldo Cruz que acabou por culminar com a famosa Revolta da Vacina em 1904.

Cresceu no imaginário popular brasileiro e se estende até hoje o fato, por exemplo, de ações de vacinação terem por objetivo “matar velhos”. Quem nunca ouviu de seus avós ou algum idoso algo relacionado? Atualmente vínhamos observando campanhas antivacinas até que…

Agora, paremos para uma breve reflexão.

Porque falamos tanto sobre algo que ocorreu há mais de um século, no momento que passamos por uma pandemia agora?  E então, porque não respeitamos o distanciamento social e a quarentena?

 

Eu vejo o futuro repetir o passado (Cazuza)

Jeitinho brasileiro e constituição escravagistas

Fomos então enquanto profissionais das ciências da saúde, buscar mais informações sobre a genética do povo brasileiro. O que nos faz não cumprir ordens e dar sempre um jeitinho, será que a genética explica?

Para alguns especialistas não se trata de uma condição genética e sim do caráter de um povo; caráter este que muda com o tempo.

Notamos então que o famoso “jeitinho brasileiro” teve sua origem devido ao alto analfabetismo lá no tempo do império, onde a conversa era sempre mais fácil, isso levara ao detrimento do que está escrito. Na base da conversa, tudo se resolve!

Em “Vida no Brasil” de Thomas Ewbank, o autor relata situações cotidianas do país em 1846 que podem nos ajudar na formulação de nossas hipóteses a cerca do povo brasileiro e suas condutas.

De forma objetiva o autor descreve uma população em sua grande maioria formada por negros, segundo ele andando ao meio-dia pelo centro, qualquer um se acharia estar em Angola. Pessoas trazidas para ser escravizadas eram agredidas frequentemente por seus senhores e o trabalho, este não era para o branco. Sim, amigos! Naquele momento se instituía que o trabalho manual era desonroso e deveria ser feito por escravos, e que digno seria trabalhar para o governo, ainda que o ganho fosse menor.

Estabelecemos desde o império um país com uma dicotomia, onde os menos abastados precisariam se virar pra viver: E assim nasce o “malandro”, o individuo pobre que precisa dar um jeitinho para resolver a vida e sobreviver. Do outro lado, o privilegiado.

Continuamos com a divisão “casa grande-senzala”, com nossas áreas-de serviço e o fato de nos acostumarmos com ela. A pobreza já não nos incomoda!

O que tudo isso nos mostra? Onde fomos parar com toda esta seleuma?

Talvez muitos gostariam de nos ouvir dizer que temos um determinado gene que nos condiciona à uma característica de descumpridores de regras, de forma que nos eximisse das responsabilidades como o não cumprimento ,senão obrigatório, ao menos empático do distanciamento social devido à pandemia provocada pelo SARS-COV 2 (“coronavírus”).

Pois é. O fato é que não se traduz nossa conduta repetida e equivocada com intervalo de mais de um século de diferença com qualquer caráter genético, senão pelo próprio caráter de nossa nação.

Lideres igualmente perdidos e influenciando o desconhecimento, tentativas de censura bloqueando informações fidedignas, trocas ineficazes e sem interesses científicos em cargos relevantes à saúde pública, depreciação da doença como sendo um refriadinho ou gripezinha e exaltação ao sistema imunológico do brasileiro.

Todos estes ingredientes se repetiram.

Todos estes ingredientes fazem do Brasil de 2020, um quadro compatível e agravado ao de 1918.

A gripe espanhola teve uma duração de dois anos com aproximadamente 15.000 mortes no Rio, a COVID-19 em um semestre nos abate com mais de 11.000 mortos até o momento.

 

“Tem a questão do coronavírus também que, no meu entender, está superdimensionado, o poder destruidor desse vírus”

(Presidente da República, 2020)

“Acho que não vai chegar a esse ponto, até porque o brasileiro tem de ser estudado, não pega nada. Vê o cara pulando em esgoto, sai, mergulha e não acontece nada.”

(Presidente da República, 2020)

“Trata-se de uma doença comum e corriqueira, um “limpa-velhos”

(Rio de Janeiro,1918)

“A epidemia declina. É o que dizem os interessados na mentira”

(Correio da Manhã, 1918)

Acusado de pouco caso criminoso e abusar da paciência do povo não tomando providências enérgicas: isolar os enfermos e expurgar os navios que aportavam na capital ”

(Rio Jornal, 11.11.1918)

 

“O pior de tudo é que estava morrendo gente aos borbotões, e o governo dizia nas ruas e nas folhas, que a gripe era benigna. Certo dia, as folhas noticiaram mais de quinhentos óbitos, e mesmo assim a gripe era benigna, benigna, benigna. (…) As mortes eram tantas que não se dava conta do sepultamento dos corpos”

(Nelson Antonio Freire, sobrevivente em entrevista em 1990)

 

Dois meses sem comando na saúde: No pior momento da pandemia, ministério acéfalo e militarizado falha na resposta.

(O Globo ,15/07/2020)

 

GOULART, Adriana da Costa. Revisitando a espanhola: a gripe pandêmica de 1918 no Rio de Janeiro. Hist. cienc. saude-Manguinhos,  Rio de Janeiro ,  v. 12, n. 1, p. 101-142,  Apr.  2005 .

Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010459702005000100006&lng=en&nrm=iso>. access n  15  July  2020.  http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702005000100006.

 

EWBANK, Thomas. Vida no Brasil ou diário de uma visita à terra do cacaueiro e da palmeira. São Paulo: Editora da USP, 1976.

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