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Buffoniando

Do salão de beleza para a drogaria

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(Insta: @leandrobuffon @buffoniando)

Possivelmente você nunca parou para atentar-se do número de salões de beleza (aqui incluo também as barbearias) e de farmácias, incluo também nessa nomenclatura as drogarias, que existem perto da sua casa, da sua escola, curso e até mesmo do seu trabalho.  Pode parecer que não, mas isso diz muito ao nosso respeito – principalmente os residentes de regiões metropolitanas. Isso fala muito sobre a nossa sociedade atual. Mas antes de começarmos a refletir, é preciso fazer uma breve diferença: fiz questão de colocar farmácia e drogaria sob o mesmo termo para ficar algo mais didático, entretanto, há diferença. As farmácias trabalham com manipulação e as drogarias com o fármaco industrializado. É uma forma bastante simplista, porém necessária de diferenciação sob o fim de separação. Não é nosso intuito aqui fazer uma digressão sobre a história da farmácia, embora acredite ser muito válida para um próximo texto.

Segundo os dados de 2018 do Conselho Federal de Farmácia, existem aproximadamente 88 mil farmácias e drogarias privadas no Brasil. Obviamente esse número deu uma crescida. Agora, o número de salões de beleza em 2019, segundo a Euromonitor, o Brasil possuía 500 mil estabelecimentos registrados. Também obviamente que esse número cresceu no último ano. Aliás, esse número já não é o real, pois não levou em considerações os trabalhadores que não registraram-se e prestam seus serviços em seus lares, lojas alugadas, tendas improvisadas, etc. Não cabe aqui nenhum julgamento sobre esses profissionais. De modo algum haverá julgamento vindo dessa parte, pois ainda que sejam informais no conceito de não terem contribuição para aposentadoria e nem vínculo empregatício, são guerreiros e guerreiras que lutam pelo sustento dos seus lares.

A intenção do texto é justamente apontar uma característica da sociedade atual: a pressa. A pressa anda de mãos dadas com a ansiedade. Sim! Vivemos em uma sociedade ansiosa! A sociedade está ansiosa para tudo. Quer um exemplo? As farmácias vendem de um tudo e investem pesado nas propagandas fazendo as pessoas acreditarem que a solução dos seus problemas se encontram em comprimidos, loções, cremes, etc. Quer perder peso? Faça uma atividade física e mude sua alimentação, correto? Não! Vá comprar um inibidor de apetite. É mais rápido e o resultado será visto em dias e todos irão comentar, o que fará bem para a sua auto-estima. Quer diminuir seu colesterol? Ligue e peça a sua pílula. Peça seu Shake! Peça seu creme anti-rugas! Quer dormir? Quer ficar mais disposto? Quer aprimorar sua memória? Tudo isso e muito mais é muito corriqueiro em propagandas numa sociedade que possui o hábito da automedicação. As pessoas tomam qualquer remédio só por causa de um benefício alcançado por uma pessoa, que foi orientada pelo seu médico. Não se preocupa e não se entende que cada corpo possui um funcionamento e um tempo diferente dos outros. Tudo isso em nome de uma busca de solução dos problemas como se fosse um passe de mágica. Uma porção de desenho animado. A questão que esses medicamentos sem orientação possuem efeitos colaterais e até dependência química.

A ideia é que tudo que foi questionado anteriormente, nem sempre possui a necessidade de medicamentos. Podem ser solucionados com exercícios e mudança de rotina. A questão é que isso requer tempo e pode demorar de semanas até meses, além de exigir sacrifícios. Todavia, o resultado é mais eficaz e saudável. Mas a ânsia de ver logo o resultado não permite “perder tempo”. Quem nunca ouviu uma expressão em academias como, operação verão? Ou, projeto verão?  O que chama a atenção é que mais do que a ideia de ostentar um corpo bonito, a mentalidade deveria de ostentar um corpo bonito e saudável. Mas isso não está em um comprimido. O caminho é árduo e as pessoas querem o resultado na velocidade de reação de um comprimido.  A atividade física, mudança de rotina e uma boa alimentação promovem qualidade de sono, diminuição da ansiedade, perda de peso, abaixa o colesterol, diminui o risco de doença cardíaca, melhoram a memória, etc., mas eles não estão prontos para essa conversa.

Mas e os salões de beleza? Por qual motivo eles estão citados no texto? Pela mesma razão das farmácias: vaidade. Obviamente não somos contra a vaidade, desde que ela seja controlada e moderada. Todos possuem o dever de estar bem consigo e com sua aparência. Isso também é saúde. Mas o que vemos explodir nas últimas décadas é mais do que querer estar bem consigo. É o querer ostentar um padrão de beleza para aparecer, sobretudo, nas redes sociais. Esse padrão de beleza está intimamente ligado pelo mesmo caminho que leva `a farmácia. A busca de se enquadrar em um padrão para ser olhado e curtido. A busca desse padrão está produzindo devastações em vidas, principalmente nos jovens, com o crescimento da ansiedade e depressão. Essa última, quando não consegue chegar ao padrão que se deseja. A internalização desses valores mercadológicos acarretam prejuízos financeiros, pois gastam o que possuem e o que não possuem em farmacologia e procedimentos estéticos cada vez mais severos. Nada mais passa a importar, só a busca desse ideal, o que afeta diretamente a vida familiar e social, além da financeira já citada.

Sabemos que isso parece meio bizarro. Pode parecer meio loucura. Mas não é! Vivemos uma sociedade muito bem definida por Guy Debord: sociedade do espetáculo.  Nessa sociedade o que importa não é ter, mas sim parecer ter. É uma sociedade mediada pela imagem. É só observar a vida nas redes sociais como elas são cheias de filtros para parecer perfeita. Você pode não ter, mas tem que parecer ter. Nesse mundo de fotos maravilhosas, você pode não ter a condição de tirar fotos em Fernando de Noronha, mas pelo menos a estética você pode chegar… e é exatamente aqui que as loucuras acontecem. Loucuras como automedicação, gastos exorbitantes em estética, roupas, cremes e outros fatores. Os campeões de uso são, não necessariamente nessa ordem: inibidor de apetite, antidepressivos, ansiolíticos, vaso-dilatador (como o Viagra), antibióticos, entre outros.

Até aqui abordamos uma questão que é perceptível de modo simples na nossa convivência. Nem nos atentamos em falar de cirurgias plásticas, pois o Brasil é campeão. Mas isso não é de acesso fácil para todos. Digo sobre as clínicas legalizadas, pois vemos regulamente a busca de consultórios clandestinos e clínicas não habilitadas, locais em que ocorrem tragédias estéticas ou fatais com constância. É a busca desesperada por alcançar seus objetivos de modo rápido e por menor preço. Os resultados são indeléveis.  Tentamos focar naquilo que é cotiano. Naquilo que observamos sem parar para refletir em nossas vidas. Não cabe aqui nenhuma sentença para quem abre um salão ou farmácia, pois são trabalhos honestos. A questão é a cultura por trás dessa procura exagerada pela farmácia e os salões. A procura por uma juventude mais duradoura, tendendo uma procura pela juventude eterna, tanto nos salões como nas farmácias. Entretanto, essa procura além de ser perigosa pela ingestão de remédios, também mostra uma faceta contraditória que é: a preparação estética regada por horas no salão, ingestão de pílulas milagrosas, uso de cremes rejuvenescedores para formas de lazer que envolve elevada ingestão alcoólica, tabagismo, em alguns casos o uso de drogas ilícitas, noites de sono perdidas e má alimentação. Quando a ressaca passar… começará um novo ciclo de buscar o padrão exigido por horas no salão e mais pílulas e cremes. Esse gozo é extremamente efêmero e por isso a necessidade de repetir os ciclos, até aonde as finanças ou o corpo aguentarem, o que fará o o vazio aumentar e com ela a depressão.

Leandro Buffon, 35 anos, é professor formado em História pela UFRRJ, onde também obteve o título de Mestre em História. Atualmente está em um novo desafio, cursando Psicologia. Escreve semanalmente na coluna Buffoniando para a Curiozone.

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