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Uma questão de causa e consequência

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Em seu livro Le Voyageur Imprudent, publicado em 1944, o escritor René Barjavel lançou um questionamento que se tornaria pedra angular para física e filosofia: “Seria possível a alguém voltar no tempo, para antes do nascimento de seus pais, e matar seu próprio avô?”

Embora a temática temporal não fosse novidade, popularizada pelo livro The Time Machine (1895) do célebre H. G. Wells, há algo no intrigante Paradoxo do Avô que (para além de questões familiar ou pessoal) confere substância à obra francesa de ficção.[1]

 

Ficção? “O tempo absoluto, verdadeiro e matemático” de Newton adquire caráter bem peculiar à luz da teoria de Einstein, para quem “a distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma persistente ilusão”. De fato, há soluções para a relatividade geral em que o espaço-tempo permite trajetórias fechadas, indo e vindo no tempo.[2]

Não está claro se a viagem no tempo é realizável. Contudo, a possibilidade de revisitar o passado implica, de modo nada intuitivo, que o mesmo ainda existe! As linhas de pensamento vigentes apontam para duas saídas ao problema inicialmente proposto.

 

Segundo o princípio da auto-consistência de Novikov, um viajante do tempo seria incapaz de alterar o passado. Suas ações inevitavelmente contribuiriam para o curso dos eventos, tais como o são e foram. A história estaria livre de inconsistências (vovô vive).

Já o panorama dos múltiplos universos em interação argumenta que o viajante do tempo sucederia em seu intento, sem comprometer sua existência. Agora num universo diferente do seu, o ser estaria desvinculado de seu passado, mas não de seu futuro.

 

Seja qual for a direção em que se busque respostas, a experiência humana parece indicar que o tempo não pára, estamos continuamente viajando para o futuro. Mas penso que o tempo seja grande demais para ser totalmente compreendido por nossos sentidos ou por leis científicas…

Sob uma perspectiva igualmente humana, o tempo confere profundidade às nossas escolhas. Sem tempo não há relação de causa e consequência, responsabilidade ou mesmo interação. O livre-arbítrio com que somos (ou não) dotados articula passado e futuro por meio do agora, ao qual estamos presos. Será que um dia nossas escolhas nos libertarão?

 

Professor de Física

@professor.ramaton

 

[1] para os amantes da 7ª Arte, sobre viagem no tempo recomenda-se as obras: De volta para o futuro (1985-1990), O exterminador do futuro (1984, 1991, 2019), Os 12 macacos (1995), No limite do amanhã (2014);

[2] o artigo original de K. Gödel, publicado em 1949, pode ser conferido em https://journals.aps.org/rmp/abstract/10.1103/RevModPhys.21.447

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